Febre reumática persiste no Estado

SAÚDE Quase 25% dos casos agudos ainda exigem internações e cirurgia cardíaca. Doença gerada por faringite tem produzido manifestação só vista em países pobres

Veronica Almeida – valmeida@jc.com.br

Setenta e dois anos depois do início do uso da penicilina, a febre reumática, doença que poderia ser controlada por esse antibiótico, já extinta em países desenvolvidos, ainda causa danos graves a crianças pernambucanas. Um estudo recente feito no Recife com 54 meninos e meninas de 5 a 14 anos, portadores da forma aguda da enfermidade, constatou que 13 deles, quase um quarto, desenvolveram quadro complicado.

Desses 13, atendidos de janeiro de 2011 a junho de 2012 no Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip), da rede SUS, 100% apresentaram insuficiência cardíaca congestiva, com edema pulmonar (acúmulo de líquido nos pulmões). “Podemos constatar que ainda surgem formas graves semelhantes às descritas há 42 anos pelo patologista Vital Lira”, afirma um dos autores da pesquisa, o cardiologista e professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Lurildo Saraiva. Em 1970, estudo feito por Lira encontrou a forma grave em 43% de 52 doentes. Saraiva detecta agora até situação descrita em Paris há 200 anos, “como anasarca, inchação generalizada do corpo, hoje só vista na África (Ruanda e Uganda), retrato da injustiça social.”

Se o uso da penicilina e o diagnóstico precoce fizeram a doença retroceder no mundo, por que em Pernambuco ainda há formas graves? Segundo os pesquisadores, a pobreza, a baixa renda per capita, a má habitação e, especialmente, a falta de diagnóstico da faringite pela bactéria estreptococo, ponto de partida para a febre reumática, são fatores determinantes.

“Em todo o Estado há uma situação desfavorável, que induz ao aparecimento de cepas agressivas da bactéria. A prevenção primordial decorreria de melhor habitação e higiene”, afirma artigo produzido para os Arquivos Brasileiros de Cardiologia pelo grupo de estudiosos, que inclui Cleusa Lapa, Cristina Ventura, Maria Auxiliadora Sobral, Breno Barbosa, Giordano Bruno Parente e Fernando Moraes, além de Lurildo Saraiva.

A cardiologista Cleusa Lapa, do Imip, atenta ainda para o grande número de adultos com valvopatia (doença nas válvulas do coração) reumática, que representam 40% das cirurgias cardíacas no Brasil, o que pode indicar ausência de diagnóstico na juventude. Segundo a médica, baseada em estudos da década passada, o SUS gasta quase R$ 100 milhões por ano com cirurgias cardíacas reparadoras em portadores de febre reumática.

Nos 13 casos recentes estudados pelo grupo, a cardite reumática (inflamação do coração pela doença) foi precedida em quase 70% dos casos por febre e artrite. Todos tiveram insuficiência cardíaca, com perda das funções da válvula mitral em 100% dos doentes e problemas na válvula aórtica em um terço deles. Dez crianças (76,9%) receberam implantes de válvulas para corrigir as mutilações do reumatismo. Houve um caso de cardiomegalia (aumento do coração) e outro de coreia, causada por lesões no sistema nervoso, caracterizada por movimentos involuntários associados à diminuição da força muscular.

Fonte: Jornal do Commercio

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