Governo federal prepara cartilha sobre aborto

Maria (nome fictício) já passou por três abortos. Os fetos, conta, morreram depois que ela apresentou picos de pressão ocasionados por situações de stress. Maria diz ser contra o ato de %u201Ctirar%u201D um bebê. %u201CEsse pecado eu não carrego%u201D, desabafa. Apesar de muitas mulheres ainda se posicionarem contra o aborto, o governo federal prepara uma cartilha com informações úteis para reduzir a mortalidade de mulheres em virtude de abortos, sejam eles provocados ou não. Em Pernambuco, foram registrados 10.360 procedimentos de curetagem pos-abortamento no ano passado. Em 2010, o número foi um pouco maior: 11.348.
A cartilha será preparada por médicos, antropólogos, juristas e cientistas sociais que deverão se reunir para discutir o assunto na próxima segunda-feira, em São Paulo. O grupo foi convidado pelo Ministério da Saúde para preparar um programa de redução de danos para aborto, a exemplo do que acontece no Uruguai e na Cidade do México. Apesar de o aborto ainda ser considerado ilegal no Uruguai, o governo ditou uma norma que obriga os médicos do setor público e privado a assessorarem as mulheres que decidirem interromper a gravidez. A medida foi tomada em 2001, quando se registrou 302 mortes maternas ligadas a abortos inseguros.
Entre as orientaçãos importantes do documento estão a observação das condições de higiente do local onde será feito o serviço e da própria pessoa encarregada do procedimento. Outra informação importante é quanto aos sintomas que podem sugerir complicações, como febre e sangramento.
%u201CInformação é direito, não é crime. Acredito que o risco de morte cairá muito com a mulher estando mais bem informada, pois ela poderá dizer ao médico como quer o procedimento. Gostaríamos da descriminalização e da legalização do aborto, mas a cartilha é um avanço para a saúde da mulher%u201D, destaca Sílvia Camurça, do Fórum de Mulheres de Pernambuco e da Articulação de Mulheres Brasileiras.
Vivi Bandler, da Ong Loucas da Pedra Lilás, alerta que, por falta de informação, pílulas do dia seguinte perdem a validade nos postos de saúde. %u201CA equipe muitas vezes não repassa o medicamento para as mulheres. O Ministério da Saúde precisa capacitar os funcionários dos serviços de referência%u201D, acrescenta.
As complicações decorrentes do aborto são a quarta causa de morte materna no Brasil. Estima-se que um milhão de gestações sejam interrompidas por ano no país. %u201CManter o aborto criminalizado impede que o número de abortos diminua porque a mulher permanece sem informação sobre formas de prevenção e continua a repetir o ato. Negar um atendimento digno a uma mulher nessas condições é como negar socorro a algúem que tem câncer em virtude do uso do cigarro%u201D, finaliza Sílvia Camurça.

Fonte: Diario de Pernambuco

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