O número de mulheres mortas por consequências de complicações durante a gravidez ainda representa um grande desafio em Pernambuco. Apesar da redução de 43% na proporção de óbitos no País, apontada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), as carências na estrutura física e de profissional nas unidades hospitalares do Estado ainda são fatores que contribuem significativamente para o problema. O último levantamento amplo feito no território pernambucano, ainda em 2010, indicou 102 vítimas fatais e o acompanhamento feito nos anos seguintes mostrou que a situação se manteve estagnada.
Para denunciar o grave quadro estadual, o Comitê de Estudos da Mortalidade Materna (CEEMM-PE) reuniu-se ontem, para elaborar um documento e cobrar da Secretaria Estadual de Saúde soluções imediatas a este cenário. “Pernambuco precisa se adequar a um novo modelo, mais comprometido e disposto a ouvir, também, as pacientes”, afirmou Simone Diniz, presidente do Conselho Regional de Enfermagem em Pernambuco (Coren-PE).
De acordo com o comitê, uma vistoria realizada nas últimas semanas em sete maternidades públicas e conveniadas da Região Metropolitana do Recife e da Zona da Mata, encontrou ambientes sem higienização, superlotação de leitos, negativa à participação dos pais além de vários aparelhos sucateados.
Entre os locais visitados estão as maternidades Barros Lima, Tricentenário, Cisam, Barão de Lucena, Clínicas e João Murilo, este último instalado em Vitória de Santo Antão. “Às mulheres que procuram essas unidades acabam passando por privações físicas e psicológicas, sofrendo mais do que deveriam. A enfermeira obstetra é uma das ferramentas que podem atenuar este processo, capacitadas a atuar em todos os níveis de atenção”, ressaltou Diniz.
Para a médica Sandra Valongueiro, que também integra o grupo ativista, a precariedade é ainda mais forte em municípios afastados da Capital, impulsionando uma busca desenfreada por acolhimento e gerando o inchaço da rede. “É preciso estabelecer políticas públicas de conscientização e capacitação dos profissionais, com o fortalecimento do pré-natal. O parto natural deve ser visto como uma via saudável, mas dando as mulheres a chance de escolher sem traumas”, afirmou. Conforme a OMS, entre as complicações que respondem por 80% de todas as mortes maternas estão o sangramento severo, infecções após o nascimento do bebê, pressão alta durante a gravidez e o aborto clandestino.
“Existem casos mais gritantes que requerem ações urgentes. O Tricentenário precisa de uma auditoria e a inspeção de equipes da Vigilância Sanitária”, criticou a coordenadora do comitê, Regine Bandler, em relação à unidade hospitalar instalada no Bairro Novo, em Olinda. Procurada pela reportagem, a Secretaria Estadual de Saúde informou que a expansão da rede de assistência ao parto fez com que a mortalidade materna reduzisse da razão de 71,1 mortes de mulheres por 100 mil nascidos vivos, em 2006, para 68,7, em 2011.
Ainda conforme a pasta, em 2012, a estatística, mesmo ainda não encerrada, aponta para uma razão de 47,5, o que significa 33 mortes a menos que as registradas em 2006. Já a Secretaria de Saúde do Recife, informou que as três maternidades da Capital estão passando por reformas, totalizando mais de R$ 12,8 milhões em investimentos, além de estarem sendo preparadas para receber a Rede Cegonha e Centros de Partos Normais. O órgão municipal apontou uma redução de óbitos, entre 2012 e 2013, passando de 17 para 14 casos.
Fonte: Folha de Pernambuco



