Mergulhados em problemas distintos, mas de causas semelhantes – histórica falta de recursos, gerenciamento pouco moderno e estreita política de pessoal -, os quatro hospitais universitários públicos de Pernambuco estão diante de momento crucial: mudar o modelo de gestão e se impor como referência em assistência e formação para brigar por orçamentos maiores que restituam a função de cuidar dos doentes mais graves.
“Deve existir uma luz no fim do túnel. Quando se quer, se consegue”, aposta o hematologista Luiz Gonzaga, 82 anos, que compõe o quadro de ilustres professores da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Pernambuco (UPE) e assiste com tristeza à desativação de quase um terço das enfermarias do Hospital Universitário Oswaldo Cruz, fruto de indecisões políticas repetidas.
Enquanto estudantes de medicina e de enfermagem da UPE, junto com médicos residentes cobrarão a partir de amanhã, em manifestações de rua, ação mais ágil para salvar o Huoc, o Sindicato dos Médicos (Simepe) prepara campanha em favor dos quatro hospitais universitários (os três da UPE e o das Clínicas, da Universidade Federal de Pernambuco).
“Há uma negligência absurda dos governos federal e estadual com as duas universidades. Ao mesmo tempo vivenciamos a abertura de escolas privadas de medicina, que propagam ser melhores e usam como professores a grande massa formada pela Federal e a UPE”, comenta Mário Jorge Lobo, presidente do Simepe. Para ele, a valorização dos hospitais universitários públicos não pode mais esperar. “Precisam ter orçamento e acompanhamento específico de gestão”, defende.
A salvação dos hospitais é urgente não só pelo conjunto de doentes à espera de tratamento especializado, mas principalmente para estudantes e residentes dos cursos de saúde, que precisam de prática nas unidades de alta complexidade.
No Huoc, além do déficit de mais de 500 profissionais, há esgoto escorrendo entre os prédios, três pavilhões aguardando reforma e a necessidade de restaurar a rede elétrica e de saneamento. O Centro de Saúde Amaury de Medeiros (Cisam), também da UPE, fechou as portas da Maternidade da Encruzilhada no mês passado para uma reforma geral depois que um laudo técnico indicava risco de acidentes. Com pouco mais de seis anos, o Pronto-Socorro Cardiológico de Pernambuco também precisa reforçar sua equipe.
O Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), embora tenha duplicado seu orçamento em cinco anos, não consegue apresentar projetos para captar mais recursos por não ter equipe técnica e tem um serviço de pronto-atendimento fechado pelo déficit no quadro de funcionários, além de problemas de infraestrutura, como elevadores constantemente quebrados.
George Telles, diretor do HC desde 2007, afirma que as reformas físicas ainda necessárias, a reabertura de leitos e o uso de novas tecnologias estão atrasados por falta de pessoal. Ocorre que os hospitais federais estão proibidos de fazer concurso e só poderão preencher seus quadros a partir da adesão das universidades à Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares, figura jurídica que vai gerenciar as unidades e poderá admitir por concurso, mas em regime celetista. A reitoria da UFPE criou comissão que vai estudar a adesão ao novo sistema, rejeitado pelo sindicato dos servidores, pois vê risco de privatização.
Na UPE, o vice-reitor Rivaldo Albuquerque, com quase 30 anos dedicados à Faculdade de Ciências Médicas, demonstra esperanças de que finalmente agora, mesmo com a desativação de leitos, um novo rumo seja dado ao financiamento e gestão do Huoc, Cisam e Procape.
“O Estado reconhece a necessidade de investimento, mas precisávamos qualificar a gestão e ter planejamento para saber investir”, diz. E a solução não foi terceirizar para organização social (como fez a Secretaria de Saúde em três novos hospitais e UPAs) nem criar uma empresa. Em vez de professores eleitos pela comunidade, cada hospital terá um gestor técnico, concursado e dos quadros da UPE. O Conselho Universitário aprovou a criação de uma Comissão de Administração do Complexo Hospitalar, que terá representação das faculdades, de usuários, da Secretaria de Ciência e Tecnologia, à qual está ligada a UPE, mais Secretarias da Saúde e dual anuncia Administração. Haverá, ainda, um superintendente para coordenar a integração das três unidades e o primeiro desafio dele e da comissão será justamente estudar uma forma de crescer o financiamento, uma vez que o Estado só paga a folha de pessoal e as três unidades se mantêm com recursos do SUS e do Ministério da Educação.
Oswaldo Cruz
Com 130 anos, o mais velho dos três hospitais da UPE, referência em oncologia e doenças infecciosas, enfrenta há três décadas alagamentos e ampliou seus pavilhões sem que tivesse rede apropriada de esgoto, água e energia elétrica.
407 leitos é a capacidade oficial, mas 112 foram fechados por más condições dos prédios e falta de mais de 500 profissionais, 300 deles técnicos de enfermagem.
5 milhões de reais têm sido o orçamento mensal do hospital, reunindo recursos do SUS e do Ministério da Educação. Precisa de R$ 31,5 milhões para uma reforma geral.
HC
A construção arrastou-se por cinco décadas, mas o hospital da UFPE, que substituiu o antigo Pedro II na condição de unidade-escola da Faculdade de Medicina do Recife a partir dos anos 70, funciona sem emergência
406 leitos é a capacidade instalada, mas 70 estão fechados por problemas na infraestrutura e falta de pessoal. Há déficit de 89 médicos, 455 técnicos de enfermagem e 51 técnicos de manutenção. Novos equipamentos, como um PET-Scan de 66 canais (verifica avanço do câncer), foram adquiridos, mas aguardam reforma física do prédio.
62 milhões de reais é o orçamento anual. Há cinco anos, era duas vezes menor.
Cisam
Funcionando há mais de seis décadas na Encruzilhada, tem maternidade de alto risco, que foi fechada no mês passado para reforma geral. Serviço irá funcionar, em breve, em ala do Hospital Alfa, em Boa Viagem.
108 leitos para parto de alto risco e cirurgias ginecológicas estão temporariamente indisponíveis
6 milhões de reais do orçamento do governo estadual serão investidos na recuperação do teto e da parte elétrica do prédio que há mais de 20 anos não passava por uma revitalização
Procape
Seis anos e meio é o tempo de funcionamento do pronto-socorro cardiológico, que já tem autorização do governo estadual para seleção simplificada e concurso. Nasceu com equipe incompleta, herdada do Oswaldo Cruz.
240 leitos estão à disposição dos doentes, mas há 20 aguardando a entrada de novos profissionais para serem ativados.
80 profissionais devem reforçar os quadros da unidade de saúde, que já tem lotação excessiva na sua emergência.
Fonte: JC



