Hospital de referência no Recife fica dois dias sem ar-condicionado na UTI

Correia Picanço, na Zona Norte, é especializado em atendimento de pacientes com aids e outras doenças infectocontagiosas. Unidade transferiu pacientes depois de 48 horas.

Um defeito no ar-condicionado prejudica há dois dias o atendimento na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) para adultos do Hospital Correia Picanço, na Zona Norte do Recife. A unidade é referência em tratamento de pacientes com aids e outras doenças infectocontagiosas. (Veja vídeo)

Nesta sexta-feira (26), a Secretaria Estadual de Saúde informou que transferiu os doentes e que não há prazo para consertar o equipamento. O governo confirmou que o sistema de refrigeração quebrou há 48 horas.

A denúncia sobre o problema no sistema de refrigeração foi feita nesta sexta-feira (26) por familiares de pacientes. Segundo eles, os equipamentos quebraram há quatro dias. A unidade realiza três mil atendimentos por mês no ambulatório e 500 na emergência.

A reportagem da TV Globo esteve no Correia Picanço e constatou a dificuldade enfrentada pelos pacientes e familiares. Na recepção, um ventilador tenta amenizar o calor.

Em uma das salas da emergência, as janelas ficam abertas e as portas são escoradas por cadeiras, para tentar permitir a circulação do ar.

“Minha mãe chegou aqui na segunda- feira e teve 42 graus de febre. Os médicos fizeram compressas com água para tentar aliviar o calor. Como uma pessoa fica desse jeito em uma UTI sem ar-condicionado?”, questiona Weslayne Andrade Silva.

A mãe dela morreu em consequência de uma doença grave. “A gente sabia que era um caso era grave, mas acredito que a falta de ar-condicionado piorou a situação. O médico disse para a gente que todos os cinco pacientes que estavam nos leitos da UTI tiveram piora”, acrescentou.

Hospital Correia Picanço fica na Zona Norte do Recife — Foto: Reprodução/TV Globo

Além do calor e do risco em setores de atendimento para pacientes em estado grave, os familiares denunciam falta de remédios. Eles se queixam do desabastecimento de medicamentos como dipirona e anticonvulsivos.

Meiry Gomes da Silva precisa de três caixas do medicamento clonazepan, usado em casos de epilepsia. “Faz três meses que estou precisando e não tem aqui. Cada caixa custa R$ 16”, afirmou.

Risco
Nesta tarde desta sexta, a promotora de Justiça Helena Capela visitou o Correia Picanço. Segundo ela, o sistema de refrigeração estava quebrado há 48 horas.

A promotora afoirmou que na UTI estavam dois pacientes. “Um deles foi transferido e o segundo paciente está sendo transferido agora”, observou.

Helena Capela disse, ainda, que será preciso esperar o conserto do sistema de refrigeração. Só depois, os cinco leitos poderão voltar a operar na UTI. “Investigamos o hospital por causa de problemas de infraestrutura e irregularidades sanitárias”, declarou.

O médico do Ministério Público de Pernambuco (MPPE) Gilberto Abreu afirmou que existe uma legislação específica para o funcionamento de uma UTI.

“É obrigatório ter ar-condicionado. A climatização é colocada para evitar contaminações e o agravamento de quadro de pacientes e, por isso, tem que se seguir essas normas” declarou.

Weslayne lamentou a situação da mãe, que morreu na unidade — Foto: Reprodução/TV Globo

Resposta
Por meio de nota, a direção do Hospital Correia Picanço afirmou que a central de ar-condcionado da UTI de adultos apresentou problemas há dois dias. Disse, ainda, que “todas as medidas” estão sendo tomadas para resolver o problema.

Segundo a unidade de saúde, os três pacientes internados no setor foram transferidos e “estão adequadamente alojados, recebendo a assistência adequada.”

O Correia Picanço lamentou a morte da paciente e afirmou que o óbito não tem relação com o problema de refrigeração da UTI. A direção informou que está à disposição dos familiares para esclarecimentos sobre o caso.

A nota reforça que a paciente foi encaminhada de outra unidade de saúde e chegou em estado gravíssimo, em coma, na segunda-feira (22).

A unidade informou também que toda a assistência necessária foi disponibilizada, de acordo com o protocolo médico, e a paciente recebeu toda as medicações necessárias e específicas para seu quadro grave, chegando a realizar exames laboratoriais e também tomografias.

“No entanto, apesar de todo o suporte médico e multiprofissional recebido nos quatro dias de internamento, ela faleceu no último dia 25 (quinta-feira) devido, exclusivamente, à gravidade do seu caso”, diz o texto do Correia Picanço

A direção reconhece a grande demanda no serviço, “com a necessidade de fármacos específicos para os seus pacientes”. A unidade “reforça o compromisso com os usuários do SUS, realizando forças-tarefas para aquisição de medicamentos quando há atrasos pontuais no abastecimento.”

A unidade informa que está abastecida com medicações como antibióticos, drogas vasoativas e de sedação, entre outros fármacos.

Secretaria
Em outra nota, a Secretaria Estadual de Saúde (SES) informou que está em diálogo permanente com o Ministério Público de Pernambuco (MPPE) e que” vai tomar todas as medidas cabíveis sobre os itens citados”

Sobre as medicações para infecções oportunistas, a SES informa que está viabilizando a aquisição dos medicamentos e que tem trabalhado para que não haja o desabastecimento.

A SES esclarece, ainda, que os medicamentos antirretrovirais são encaminhados ao Estado pelo Ministério da Saúde (MS) e distribuídos nas unidades pernambucanas.

Fonte: G1

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