Jejum vira aliado contra o câncer

Se não se pode com o inimigo, mate-o de fome — pelo menos, quando o adversário é o câncer. Um estudo publicado na revista Science Translational Medicine descreve resultados animadores na luta contra a doença, obtidos por meio de uma abordagem inédita. Em vez de ir atrás de uma fórmula farmacêutica mágica, pesquisadores da Southern Califórnia University, em Los Angeles, apostaram no jejum para varrer do organismo as células malignas. Considerados “surpreendentes” pelos autores, os efeitos abrem caminho para um novo tipo de tratamento, capaz de eliminar até mesmo metástases severas.

Foram muitos anos de pesquisas intensas, até que a equipe comandada pelo biólogo Valter Longo conseguiu provar o que o cientista ítalo-americano já desconfiava: ao contrário das células normais, as cancerosas não sobrevivem em ambientes hostis. Em 2003, Longo, que estuda o envelhecimento celular, imaginou se, em estado de privação de nutrientes, as células com mutações oncogênicas se comportariam da mesma forma que as saudáveis. O biólogo explica que, na falta de alimentos, as células sadias entram em um estado semelhante ao da hibernação: “recolhem-se”, evitando qualquer tipo de atividade que possa consumir os nutrientes restantes.

Nos testes, foi constatado que a restrição alimentar é mais vantajosa do que o medicamento sozinho. O que mais surpreendeu aos cientistas é que, em alguns casos, os ciclos de jejum, sem quimioterápicos, eram tão eficazem quanto os remédios. Aliada à quimioterapia, porém, a redução de calorias foi ainda mais eficaz.

Entrevista >> Valter Longo,  pesquisador da Universidade de  Southern Califórnia, em Los Angeles

O que diferencia esse estudo de um artigo publicado, em 2008, que também mostrava a eficácia do jejum nas células cancerígenas?
No estudo atual, fizemos um experimento com animais e, basicamente, testamos uma grande variedade de cânceres, alguns deles humanos e alguns deles específicos de ratos. A variedade foi mesmo grande, passando de câncer de mama a melanoma e glioma, entre outros tipos. Previamente, o que nós havíamos descoberto é que ciclos de jejum poderiam proteger os ratos dos efeitos tóxicos da quimioterapia, mas não estava claro se essa estratégia traria algum tipo de prejuízo às células cancerosas. Estamos trabalhando nesse projeto há cinco anos. Agora, pudemos constatar o que aconteceu com as células cancerosas depois do jejum. Descobrimos que os ciclos de jejum associados à quimioterapia prejudicaram essas células e, o que mais nos surpreendeu, para diversos tipos de câncer, mesmo sem quimioterapia, vimos que os ciclos de jejum são tão eficientes quanto o medicamento. Isso não ocorre sempre, mas acontece em diversos tipos de câncer, então, é claro, são resultados muito animadores para nós.

Essa é uma abordagem nova no tratamento do câncer?
Sim, acredito que sim. Porque o foco das pesquisas, e muitas delas têm sido bem-sucedidas, é encontrar uma fórmula mágica que mate as células cancerosas. O que nosso trabalho mostrou é que, além de combater o câncer e proteger as células normais, talvez um foco bastante interessante seja esquecer essa fórmula mágica e se concentrar na criação de ambientes extremos, nos quais uma célula normal pode responder, mas uma cancerosa, não. As células cancerosas têm mutações que dão a elas a vantagem de se replicar em grande velocidade. Em compensação, essas mesmas mutações fazem com que elas não consigam lidar com ambientes extremos. O jejum é, provavelmente, a situação mais estressante para células, e é por isso que passamos anos testando essa possibilidade.

Já é possível pensar em aplicações clínicas do estudo?
Sim, há um potencial clínico muito grande para pacientes com diagnóstico de câncer. Alguns anos, nós publicamos um artigo que mostrava que, além do potencial de proteção contra os efeitos colaterais da quimioterapia, os ciclos de jejum poderiam ser benéficos em relação ao tratamento em si. Dez pacientes humanos que fizeram quimioterapia aliada ao jejum de comida tiveram uma resposta muito melhor ao tratamento realizado, em relação aos que apenas tomaram os medicamentos.

Fonte: Diario de Pernambuco

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