Jovens de Pernambuco criam startups para combater problemas sociais

Uma nova geração, mais conectada do que nunca, está unindo forças para amenizar as consequências da má distribuição de renda, crônica no País, e outros problemas de natureza socioeconômica. Moradia precarizada, poluição do meio ambiente, problemas de saúde, relacionamentos abusivos. São algumas das mazelas que essa juventude está tentando corrigir com ajuda da tecnologia. E vão além: deixam sua marca e fazem desse propósito um empreendimento.

Ana Pedrosa é estudante de Arquitetura. Enquanto passava pela Via Mangue, no Pina, observou a paisagem. Viu as grandes estruturas de concreto contrastarem com as palafitas que se misturam ao que restou do mangue. Ela, apaixonada pela possibilidade de modelar cidades, decidiu arregaçar as mangas. Foi aí que se tornou uma das idealizadoras, junto com Nathália Monteiro e Martin Sablayrolles, da startup Habite, que começa a atuar nas comunidades vendendo ‘kits reforma’ a um preço justo. “Eu poderia fazer mais do mesmo e ganhar dinheiro trabalhando para as classes A e B, mas não me dá prazer”, desabafa.

Um exemplo: a reforma da casa de uma moradora de Brasília Teimosa custou R$ 11 mil, mas não foi concluída. “Nós teríamos cobrado R$ 3 mil com material, planejamento e mão de obra local (o que empregaria moradores das redondezas)”, conta. Ana acredita no potencial de lucro da sua empresa, pois, se seu trabalho atingir 1% da quantidade de lares insalubres de Recife, já significa atender 2,5 mil casas. Isso, além da renda, já mudaria a realidade de muitas famílias e até salvaria vidas. Para a ideia se consolidar, o investimento total foi de R$ 150 mil.

Mudar as estruturas das casas, com certeza, é um desafio. Mas não é maior do que mudar as relações dos casais que vivem nelas. “Mulher é assassinada pelo marido na frente dos filhos em sua residência”. A notícia, embora chocante, se tornou corriqueira. Cansada disso, a jornalista Renata Albertim criou, junto com suas sócias, o “Mete a Colher” – um aplicativo (App) que ajuda mulheres a saírem de relacionamentos abusivos. Elas, que já viveram essa angústia e consultaram vítimas, chegaram a conclusão de que – na maioria dos casos – a mulher só precisa conversar e de informação para sair de uniões tóxicas assim.

Foi aí que surgiu o App. “Oferecemos o bate papo entre mulheres que procuram auxílio e as que querem ajudar, incluindo assistência psicológica e jurídica”, explica. Além dessas opções, as mulheres podem encontrar abrigos e até vagas de emprego. E para manter funcionando, as empreendedoras tiveram que arrecadar R$ 45 mil para o investimento inicial. A plataforma será lançada em julho, mas em um breve teste já sentiram boa recepção: mais de 160 mulheres, brasileiras e do exterior, procuraram o App. “Acreditamos que vamos ter lucro, mas o verdadeiro motor é a empatia pela dor da outra”.

Histórias como as de Ana e Renata ainda são poucas tanto no Brasil como em Recife – comparado ao resto do mundo, mas já é uma tendência. Em um ano, 840 startups de impacto socioambiental foram abertas. Na opinião da coordenadora de projetos e negócios sociais do C.e.s.a.r, Andréa Santos, esse movimento tem dois lados: o de dar sentido a existência de uma empresa e o de fidelizar o cliente. “As pessoas, mais do que antes, vivem em busca de razões para existir. E mais que isso: as empresas usam do propósito para ficarem mais próximas do consumidor e criar um laço”.

Para provar que, apesar de ser um conceito novo, o método dá certo, Jonatan Alves, sócio do EcoLivery com Amilcar Marques, abriu a startup de entregas por meio de bicicleta há três anos. Cicloativista, ele desembolsou R$ 3 mil para criar o software e divulgar a plataforma que emprega ciclistas para entregas avulsas ou propriamente para o serviço de delivery nos restaurantes – por exemplo. Atualmente, o App sustentável e preocupado em diminuir os efeitos negativos da poluição causada pelos carros tem cerca de 70 clientes no Recife. O faturamento gira em torno de R$ 20 mil e, mesmo com pouco tempo, já cobre os custos e começa a gerar lucro.

Enquanto, o EcoLivery tenta amenizar os impactos ambientas, outra empresa tenta reduzir os custos daqueles que sofrem as consequências de erros do poder público. Segundo a Organização Nacional de Saúde (ONS), 30% do que o brasileiro paga com saúde é desperdiçado por ineficiência. Tentando amenizar essa perda, o sócio da startup Salvus, Maristone Gomes, projetou uma plataforma que controla o uso de cilindros de oxigênio puro a fim de otimizá-los. “Isso acaba reduzindo o custo para o usuário, porque não precisará pagar a mais pelo descarte precoce do cilindro”, analisa. Hoje, com apenas sete meses de atuação, a Salvus tem três clientes e já estima um faturamento de R$ 300 mil em 2017.

“O propósito é o fim. A tecnologia é apenas o meio facilitador”, conclui a coordenadora do C.e.s.a.r Andréa. Afinal, essa nova geração é conectada, preocupada, engajada e ainda quer aliar isso a uma maneira de ganhar dinheiro. Ou seja, viver da causa. Na opinião da especialista, o motivo principal é que os desenvolvedores de softwares não querem mais apenas programar, mas saber para como e onde seus produtos estão sendo usados. “É sobre um fruto seu fazer diferença na sociedade. Essa garotada quer deixar sua marca”.

Fonte: Folha de Pernambuco

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