A cada 1h30 morre uma brasileira vítima de câncer de útero. Uma média de 5 mil mulheres ao ano. Ao final de 2016, serão notificados 16.340 novos casos, projetam estudiosos do Instituto Nacional do Câncer (Inca). Tende a ser um percentual 4,8% maior que aquele visto em 2015. No país, o câncer de colo de útero é o terceiro mais comum. Se tomarmos como referência a região Nordeste, é o segundo – só acima da região Norte, onde este tipo de câncer é o mais incidente. Condições de pobreza, escolaridade, exposição sexual e variedade de parceiros podem ser componentes que contribuem para as estatísticas locais. Não são únicos fatores, destaca-se. A quantidade já seria quadro calamitoso, mas o alto nível de desconhecimento da doença torna a situação mais grave. É de assustar a revelação da pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha em parceria com a Roche Farma Brasil. De acordo com o levantamento, 58% das pernambucanas sequer conhecem o câncer de colo de útero.
Quando se fala do teste do HPV, capaz de apontar a infecção que gera o câncer, outro dado alarmante: 85% das mulheres daqui dizem que nunca realizaram o teste. Também usados na rota de investigação para a enfermidade, exames de papanicolau e colposcopia nunca foram realizados por 44% e 42% da população feminina, respectivamente.
São números cercados por nuances ligadas ao preconceito, barreiras culturais, ao machismo, à falta de assistência especializada à mulher. A própria pesquisa corrobora análise assim, à medida que constata que 73% dos entrevistados não conhecem pessoas que tenham ou já tiveram câncer de colo de útero. Pouco se fala da doença e, se ela estiver em fase avançada, ainda mais difícil é. Pela amostragem no meu ciclo de conhecimentos, posso dizer que algum sentido há.
Se as pessoas evitam falar no câncer, mais demorada tende a ser a busca pelo diagnóstico, tratamento e maior é o mistério e o temor sobre a taxa de mortalidade. “Falta informação. A taxa de mortalidade depende muito do avanço do câncer. Temos sucesso de até 90% em casos descobertos na fase inicial e taxa de sucesso de 20% em casos onde se constata metástase”, explicou-me Carla Rameri de Azevedo, médica oncologista e pesquisadora do Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip) e da clínica MultiHemo.
Quando o agravamento leva a paciente à morte, frisa a médica, “o peso econômico para a sociedade é muito grande”. Isto porque, completa, a maior parte das mulheres vítimas fatais têm idade entre 49 anos e 55 anos, são economicamente ativas, trabalham, contribuem com a renda familiar, têm filhos e muitas vezes são chefes de núcleo familiar. Na sua rotina em dois centros diferentes de atendimento, Carla Rameri vê perfis distintos de pacientes. No setor privado, a incidência é baixa e a paciente chega em geral com estágio mais precoce. Já no setor público, a taxa de diagnóstico confirmado é alta e o estado geral do câncer é mais avançado. “Essa diferença se dá pelo acesso ao serviço de saúde e atraso no diagnóstico”, acredita a pesquisadora, citando ainda problemas no tratamento, uma vez que o número de habitantes por aparelhos de radioterapia é bem aquém do desejado. A Organização Mundial da Saúde recomenda uma máquina a cada 300 mil habitantes. No Brasil seriam necessárias 680 máquinas; temos menos de 400.
A pesquisa DataFolha Roche Farma Brasil diz que 63% das mulheres precisam esperar uma vaga especializada no Sistema Único de Saúde e a média de espera para encerrar um ciclo de atendimento chega a 6 meses. Ele engloba a consulta inicial, o exame e a consulta de retorno, na qual os médicos avaliam os exames solicitados. Os tumores, sendo assim, passam a ser diagnosticados em estágios avançados.
Especialistas dizem que a situação do Brasil é alarmante. Exames preventivos e vacinas estão no topo das medidas primordiais para driblar a doença. Resta o apelo para exames regulares e para a ampliação da dose de vacina HPV em adolescentes, quando ela vale efetivamente. Diante desse cenário, não cabem questionamentos a respeito do efeito da vacina sobre adolescentes, se ela significa liberação sexual ou não. Cabe a preocupação futura com saúde da mulher.
Fonte: Diario de Pernambuco



