Médicos em falta

A polêmica sobre importação de profissionais de saúde para ocupar postos vagos, especialmente no interior, em proposta do governo federal, desperta a atenção para uma situação preocupante. A falta de médicos é uma realidade em vários municípios do País, e a dificuldade para contratação é conhecida pelos prefeitos há anos.

Para além da queda-de-braço entre entidades do setor e o governo Dilma, não se deve perder de vista que a falta de médicos em determinados locais é sintoma de uma política pública com deficiências há muito tempo. Os problemas se avolumaram de tal forma que a crise se tornou aguda. Somos uma nação de doentes, onde remédios apodrecem sem ser distribuídos, hospitais e postos são mal equipados e lotados, o atendimento da rede pública é precário e, para completar, a rede privada está longe do desejável.

É nesse contexto de falência múltipla do sistema que se enquadra o imbróglio da contratação de médicos estrangeiros. Segundo o Ministério da Saúde, a distribuição de profissionais no território nacional é desequilibrada. No âmbito do Programa de Valorização Profissional da Atenção Básica (Provab), que busca vencer o desequilíbrio, menos da metade dos municípios que recorreram ao programa foram atendidos: das quase 13.200 vagas oferecidas, só 3.800 foram preenchidas. É preciso investigar melhor as causas de um déficit que penaliza a população. No Brasil, há quase 2 médicos para cada mil habitantes, quase o dobro da relação recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Portanto, se faltam médicos em tantas cidades, alguma coisa está errada.

Segundo representantes da categoria, a solução anunciada pelo governo federal não terá a consequência esperada se o Sistema Único de Saúde (SUS) continuar como está. A queixa comum é sobre a infraestrutura. Além disso, questiona-se a formação dos que viriam de outros países. Para o diretor do Sindicato dos Médicos de Pernambuco (Simepe), Mário Fernando Lins, em artigo publicado no Blog de Jamildo, médicos que tiverem boa formação sempre serão bem-vindos, mas há necessidade de realizar concursos públicos. “Com as prefeituras oferecendo “empregos” com vínculos temporários, não vamos a lugar nenhum. Não é com a vinda de 60, 600 ou 6.000 médicos de formação duvidosa que vamos resolver os problemas”, alerta.

A alusão é por que o governo Dilma quer flexibilizar o Revalida – a avaliação de conhecimentos para validar o diploma dos estrangeiros no Brasil – para trazer os profissionais. Em 2012, apenas 77 dos 884 médicos que fizeram o exame foram aprovados. A polêmica brasileira chegou na OMS, que resumiu: a contratação de médicos do exterior não é panaceia. É um paliativo que pode ter sua serventia, enquanto a reestruturação do sistema de saúde recebe investimentos adequados. Sem atacar a causa da enfermidade, os sintomas não irão ceder facilmente.

Fonte: Editorial de domingo (26/05/13) do Jornal do Commercio

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