Médicos querem ampliar a rede de assistência

Médicos que acompanham os bebês com microcefalia e síndrome congênita do zika estão preocupados com os problemas gastrointestinais apresentados por essas crianças, especialmente após os 3 meses de vida, quando o cérebro começa a organizar o mecanismo de respirar e se alimentar ao mesmo tempo. Nesse processo, mais de 50% desses bebês, segundo a neuropediatra Vanessa van der Linden, apresentam algum grau de dificuldade de deglutição com risco de broncoaspiração – uma condição chamada de disfagia e que faz Pernambuco se organizar para criar rede de assistência capaz de oferecer tratamento adequado para os problemas gastrointestinais.

A ideia é ter, pelo menos, um serviço que possa ser a matriz em cada uma das quatro macrorregiões: Recife, Caruaru, Serra Talhada e Petrolina, segundo informa a secretária-executiva de Atenção à Saúde da Secretaria Estadual de Saúde (SES), Cristina Mota. “Queremos trabalhar com os serviços de gastropediatria que já existem, como o do Hospital das Clínicas e o do Imip (Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira), como também com o Hospital Barão de Lucena, que tem serviço de pediatria”, diz Cristina.

Essa necessidade nasceu a partir da realidade vivida pelo Hospital das Clínicas (HC) da Universidade Federal de Pernambuco, por onde já passaram cerca de 20 bebês com microcefalia e algum grau de disfagia, de acordo com a chefe do Serviço de Gastroenterologia Pediátrica do HC, Kátia Brandt.

A médica destaca que, entre os bebês com microcefalia e síndrome congênita do zika, há um grupo que tem evoluído com sinais de dificuldades alimentares e apresenta necessidade de intervenção imediata, como internamento, colocação de sonda pelo nariz e posicionada no estômago e encaminhamento para a gastrostomia. “São crianças que manifestam recusa alimentar, negação para ingerir alimento ou consumo em poucas quantidades. Elas evoluem com baixo ganho de peso, restrição de crescimento até falta de coordenação da deglutição, caracterizada por tosse, engasgo, sufocação e episódios de infecção por possível passagem do alimento para o pulmão. Ou seja, há agravo nutricional e complicações respiratórias”, frisa Kátia Brandt.

Ela acrescenta que, uma vez pactuado o acordo entre o Hospital das Clínicas e a Secretaria Estadual de Saúde, será possível aumentar o número de profissionais na gastropediatria para ampliar o atendimento. Ainda não há prazo para ser oficializada essa parceira.

Outro passo importante é a capacitação dos profissionais que atuam na pediatria, já que há poucos gastropediatras em Pernambuco – estima-se, segundo Kátia Brandt, que não exista mais de 20 médicos especialistas na área em todo o Estado. “Isso será um trabalho de médio prazo”, salienta Cristina Mota.

Atualmente, o Estado disponibiliza 26 centros de referência destinados a atendimento e reabilitação das crianças com microcefalia. No próximo mês, será implantado mais um serviço no Hospital Regional Sílvio Magalhães, no município de Palmares, na Zona da Mata Sul de Pernambuco.

PROTOCOLO

Pernambuco registra 71 bebês sem microcefalia, embora tenham apresentado alterações em exames de imagem que sugerem zika congênita. Para que essas crianças possam receber monitoramento adequado, a Secretaria Estaudal de Saúde deve divulgar um novo protocolo de vigilância de casos deixando de limitar a visão para a microcefalia. Ainda não há prazo para apresentar o documento.

Fonte: Jornal do Commercio

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