Na longa estrada da hemodiálise

Três vezes por semana, a dona de casa Severina Maria dos Santos Filha, 43 anos, sai de Gravatá, no Agreste, para se submeter a sessões de hemodiálise no Recife. Por falta de vaga nas clínicas de cidades vizinhas, ela é obrigada a viajar numa ambulância até a emergência do Hospital Barão de Lucena, na Zona Oeste da capital, para ter seu sangue filtrado por uma máquina.

Assim como Severina, outros pacientes do interior estão sendo dialisados nas unidades do Recife. Se não há vaga, o renal crônico é encaminhado para o serviço mais próximo ou para as emergências. A distribuição é feita pela Gerência de Regulação Ambulatorial da Secretaria Estadual de Saúde, a partir da solicitação das clínicas.

As máquinas móveis se destinam a pacientes que apresentam quadro renal agudo. Normalmente, são pessoas que já estão internadas e desenvolveram, na unidade de saúde, comprometimento da função renal, explica a técnica da Gerência de Regulação Ambulatorial da Secretaria Estadual de Saúde Maria Cecília Oliveira. Já as fixas, instaladas em clínicas especializadas ou hospitais, são para os crônicos, aqueles que tiveram a hemodiálise recomendada por um médico em função de doença renal estabelecida.

Como há mais de dois anos as clínicas não têm autorização para ampliar o serviço, as máquinas de hemodiálise móveis estão sendo usadas para atender pacientes crônicos, e não apenas agudos.

Nas clínicas, o valor da sessão é R$ 170,50, custeados pelo SUS. Nas emergências, o governo paga R$ 700, com recursos do Tesouro Estadual, ou seja, quatro vezes mais. Sete empresas prestam o serviço, por meio de contrato: Nefroclínica, Multirim, Hemonefro, SOS Olinda, Uninefron, SOS Caruaru e Centro de Terapia Renal Piedade.

Além de ocupar uma vaga nas emergências, os pacientes nessa situação enfrentam o desconforto do deslocamento. Severina fica três horas e meia deitada numa ambulância. “Sinto enjoo e dores no corpo, relata. Preferia fazer a hemodiálise mais perto de casa.

A Sociedade Brasileira de Nefrologia informa que já solicitou, por ofício, à Secretaria Estadual de Saúde o acréscimo de vagas nas clínicas conveniadas. Esse número deve ser revisto constantemente, em função da quantidade de pacientes que ingressam no serviço, diz o presidente da seção regional da SBN em Pernambuco, Arthur Tavares.

O aposentado Amílcar de Souza Oliveira, 74 anos, que mora a poucos minutos da Clínica do Rim de Vitória de Santo Antão, na Zona da Mata, iniciou o tratamento semana passada na SOSrim, de Caruaru, Agreste. Na primeira sessão, tive que pagar R$ 120 por um carro de praça. Mas o pior é a distância.

A clínica, no entanto, informa que tem 90 vagas disponíveis para atendimento pelo SUS e que pediu à Secretaria Estadual de Saúde a ampliação do serviço, já aprovada pela Agência Pernambucana de Vigilância Sanitária (Apevisa).

Outra paciente insatisfeita é Simone Maria da Silva, 26. Em abril, depois de várias vezes hospitalizada com pressão alta, ela teve prescrita a hemodiálise. Simone mora em Gravatá e pediu para se submeter a sessões em Vitória.

Passaria só 20 minutos na ambulância. Pra vir para Caruaru levo uma hora e dez minutos. Desde criança, enjoo quando entro num carro. Mas agora, com o tratamento, as crises de vômito são ainda piores.

Assim como Severina, Simone se enquadra no Tratamento fora do Município (TFM). O programa beneficia pacientes que precisam de atendimento regular em unidades de saúde a distâncias superiores a 50 quilômetros do domicílio. Nesses casos, a prefeitura é obrigada a garantir o transporte do paciente ou uma ajuda de custo.

O direito a acompanhante é outro impasse. Assegurado apenas para menores de idade e idosos, no caso dos pacientes de hemodiálise é uma necessidade recorrentemente relatada. A gente fica tonta. Sem ninguém pra ajudar é difícil subir e descer da ambulância sem correr o risco de levar uma queda, argumenta Severina.

A Secretaria de Saúde, no entanto, questiona a necessidade. A gente sabe que durante a sessão o acompanhante não fica na sala de hemodiálise. Só se for de idoso ou criança. Muitos fica zanzando no Recife. Quando estão no Nefrocentro (em Casa Forte, Zona Norte do Recife) vão pro Shopping Plaza. Os do da Pronto Rim (na Santa Casa de Misericórdia, em Santo Amaro) querem ir para o Tacaruna, diz Maria Cecília.

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