O avanço do Crack

Pesquisa da Universidade Federal de Pernambuco coordenada pela professora Roberta Uchôa, e destacada na edição do JC no último dia 27, ratificou a dimensão assustadora tomada pelo consumo de crack no Grande Recife em poucos anos. De acordo com o estudo, foi em 2010 que as apreensões da droga superaram as apreensões de maconha na RMR – e naquele ano, o total interceptado foi de 76 quilos, enquanto de janeiro a setembro deste ano, segundo a Secretaria de Defesa Social, o volume chegou a 235 quilos retirados do tráfico em Pernambuco.

A pedra maldita é o entorpecente do século 21 nas nossas ruas. Em parceria com o Instituto de Criminalística, a pesquisa mostrou que, em 2001, o crack era apenas 1,8% dos entorpecentes pegos pela polícia, e a maconha liderava com quase 80% das apreensões. Em 2010, o crack ultrapassou a erva, com cerca de 46%, contra 42% da maconha no universo de drogas confiscadas. De custo barato e alto poder de dependência, o vício do crack avançou logo no mercado do tráfico no Brasil, e hoje pode ser visto como problema de saúde pública na maioria dos municípios do País, com avassaladora predominância no Nordeste, segundo dados recentes da Fundação Oswaldo Cruz. O retrato da situação de calamidade no Grande Recife não difere de outros grandes centros urbanos, como São Paulo, onde surgiu o termo cracolândia, para designar uma área de concentração de usuários da droga no centro da cidade. Atualmente, há tantos pontos de consumo coletivo na maior cidade da América Latina que já surgiram as minicracolândias, longe do centro, expandindo o tráfico.

Como se não bastasse as imagens deprimentes do vício transformado em epidemia nas ruas, os testemunhos de quem mergulhou ao inferno são pungentes. “O crack arrasta tudo, ninguém acredita mais em você. Viciei na primeira pedra. Para entrar é fácil. Para sair é difícil demais”, declarou à nossa reportagem um ex-pescador e ex-viciado em maconha, que tenta recuperar a vida através do Programa Atitude, da Secretaria de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos de Pernambuco. Para a professora Roberta Uchôa, a ausência de políticas eficazes de prevenção e inserção social nos anos 1990 pode explicar o crescimento vertiginoso do crack na capital pernambucana na primeira década dos anos 2000. “É uma geração perdida que, sem estudo e sem se inserir no mercado de trabalho, passa a atuar nesse campo. Virou uma atividade econômica alternativa”, avalia.

Dos 94 bairros do Recife, somente 11 não exibem estatísticas de consumo e apreensão da droga. Os demais compõem a área da cracolândia, num desafio cada vez maior para as autoridades, com rebatimento nas áreas social, na educação e na segurança. O que se espera dos governantes é o comprometimento público à altura desse desafio, porque as consequências da omissão estão nas ruas e avenidas, e afetam todos os cidadãos, todas as famílias, de todas as classes sociais. Para enfrentar o crack, não há mais tempo a perder.

Fonte: Jornal do Commercio

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