O IBGE abriu o mês de agosto divulgando as Tábuas de Mortalidade por Sexo e Idade no Brasil em 2010, com indicadores das mudanças nos níveis e padrões de mortalidade no período de 30 anos. Pela seriedade do órgão e pelo período de fundamentação dos dados não há o que questionar no que está exposto. Alguns gráficos causaram boa repercussão, como a constatação de que o nordestino aumentou substancialmente a expectativa de vida, passando da média de 58 para 71 anos.
A pesquisa do IBGE chega num momento importante até mesmo pelo que pode contribuir para que a nação entre em um ciclo de mais autoestima, redirecionando, em parte, a roda perversa que se expõe todos os dias em movimentos de rua que variam entre pacifistas, políticos, reivindicatórios e de pura baderna. Esse aspecto animador da pesquisa é amplo, colocando-nos num nível tolerável e quase civilizado em matéria de mortalidade infantil e expectativa de vida.
Entretanto, a pesquisa tem leituras complexas, leva a indicadores que em nada contribuem para fomentar a autoestima. Exemplo é a coincidência de os dados terem sido divulgados exatamente quando no Nordeste, e particularmente em Alagoas e Pernambuco, vive-se o escândalo de alta mortalidade pelo consumo de água contaminada. Coisa primitiva, que deveria ser impensável no século 21. Mais: se o IBGE mostra que no Nordeste a expectativa de vida passou dos 70 anos, também diz que em nossa Região se situam os indicadores mais atrasados. Por exemplo, o Maranhão é o Estado brasileiro com menor esperança de vida ao nascer e Alagoas tem a mais baixa expectativa de vida masculina.
Esses dois exemplos, pinçados num grande quadro, apontam para aspectos subjetivos e emocionais que uma tabela estatística não expõe. No primeiro caso – e o Estado do Maranhão não está só – a alta mortalidade infantil se deve à ausência – ou deficiência – de políticas públicas, enquanto o segundo igualmente toca numa questão nacional, a insegurança, que chega aos números através da violência, da criminalidade e, até e principalmente nos dias correntes, aos altos índices de mortalidade por acidentes de motos entre jovens.
Essas são leituras necessárias no correr dos percentuais animadores, até para que se alimente a cultura da busca pelo melhor, como discurso e como prática. Claro, sempre será desejável constatar, como faz agora o IBGE, que o Nordeste teve a maior queda na taxa de mortalidade infantil entre 1980 e 2010. Mas igualmente se exige que seja eliminada a distância que existe entre a nossa Região e o Sul e Sudeste, onde os indicadores estão mais próximos das nações mais desenvolvidas. Dê-se, pois, o crédito pelos avanços, sem perder de vista que poderiam ter sido muito maiores, sobretudo quando nos jactamos de ser a sexta ou sétima economia de mundo, mas estamos lá embaixo na lista das nações onde é maior a expectativa de vida ao nascer.
Fonte: Jornal do Commercio



