O desafio de acabar com as filas do SUS

Regulamentado pela Constituição de 1988, o Sistema Único de Saúde ainda não conseguiu superar um problema histórico, a espera por atendimento

RIO – A imagem do marido agonizando não sai da cabeça da líder comunitária Sônia Regina Gonçalves, que o internou em 1º de dezembro de 2010 para tratar de um câncer nas cordas vocais no Hospital do Andaraí, no Rio. Por dez dias, aguardou que uma vaga fosse aberta no andar onde os casos de cabeça e pescoço são tratados. Sônia diz que, durante a espera, viu o marido ficar “cada vez mais fraco”, até não resistir: “Talvez a história fosse outra se ele tivesse ido para o lugar certo. Fiz o que pude, mas a morte venceu”.

O drama de Sônia é comum a muitos brasileiros. Regulamentado na Constituição de 1988, o Sistema Único de Saúde (SUS) – que engloba desde atendimento ambulatorial até transplante – interna, em média, nove milhões de pessoas por ano, faz mais de dois milhões de partos e realiza cerca de 16 mil transplantes. No entanto, outras milhares de pessoas no País aguardam atendimento. Estudo do pesquisador Alexandre Marinho, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), baseado em dados de 2007, mostra que, no Brasil, o tempo médio de espera por uma internação é de seis dias.

Números reunidos por secretarias de Saúde, sindicato dos médicos, sociedades brasileiras de várias especialidades e profissionais do setor são ainda mais dramáticos. No Instituto Nacional de Traumatologia (Into), 21 mil aguardam cirurgia. Na fila da cirurgia bariátrica, só no Estado do Rio, há cinco mil. No município, espera-se 12 meses por uma cirurgia vascular eletiva.
Em Minas, segundo a Sociedade Brasileira de Radioterapia, sete mil pessoas esperam para iniciar tratamento. Em Pernambuco, são 4.458. Operar o joelho no Hospital das Clínicas de São Paulo pode demorar quatro anos, segundo a Sociedade Brasileira de Ortopedia.

Ministro da Saúde, Alexandre Padilha reconhece que as filas são um problema e propôs a criação de um indicador nacional de qualidade de acesso aos serviços de saúde: “O indicador mostrará a realidade e poderemos estabelecer metas e melhorias. Mas para que ele exista, faremos um mapa sanitário nacional, que permitirá que sejam comparadas as necessidades com a oferta do SUS”, explica. “O mapa é a base do indicador, e pode ser que tenhamos um da atenção básica e outro da média e alta complexidade. Mas para cada região, o mapa vai nos ajudar a pensar estrategicamente”.

Investir em prevenção é o caminho

RIO – Médico da rede pública há 30 anos, J. N. trabalha na central estadual de regulação de vagas do Rio de Janeiro e acompanha semanalmente o drama de adultos que precisam de leitos de Unidade de Terapia Intensiva: “Em média, num plantão de 24 horas, recebemos de cem a 150 pedidos de internação, e, muitas vezes, deixamos o plantão sem conseguir internar uma pessoa. Temos muita dificuldade também para conseguir leitos para doentes de aids que desenvolvem tuberculose. A média de espera é de uma semana”.

Levantamento da Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva da Saúde da capital fluminense mostra que o déficit de leitos de CTI adulto chega a cem, e que crianças esperam de cinco a dez dias para serem internadas. Uma biópsia pode levar seis meses.

Presidente do Conselho Nacional de Saúde, Francisco Batista Junior acredita que as filas podem ser reduzidas se o País investir em prevenção. “Tratar com antecedência problemas simples que evoluem para casos mais graves pode evitar, por exemplo, que pessoas precisem fazer hemodiálise, que hoje tem fila em todo o País. O SUS consegue evitar o óbito daqueles que têm um trauma, que chegam às emergências, mas o atendimento eletivo tem problemas gravíssimos, que não são resolvidos só com dinheiro”, diz Francisco.

Pesquisador do Ipea, Alexandre Marinho concorda que nem o maior orçamento do Ministério da Saúde desde 1995 – serão R$ 77 bilhões em 2011 – sozinho resolverá a superlotação dos hospitais e as filas. “Esse problema é maior dependendo do lugar, e piora porque não existe gestão de fila no Brasil nem estudo sistemático sobre o tema. A proposta do ministro Padilha é um primeiro passo, porque como a demanda de saúde é imprevisível, a gestão é imprescindível. Não dá para administrar o que não é conhecido”, diz Marinho, que já se debruçou sobre dados de filas para internações relacionadas com a gravidez, parto e puerpério e descobriu que em 1990 e em 2002, em Salvador, o tempo de espera era de mais de 48 horas. Segundo o Ipea, em média, no Brasil, nos mesmos anos, uma mulher esperava 20 horas para dar à luz.

O alto preço pago pela espera

SÃO PAULO – A espera de um ano e seis meses por uma prótese agravou a osteomielite de Vinícius Alexsander de Almeida, 21 anos. Ele teve o pé direito amputado na manhã do último dia 14, no Hospital das Clínicas (HC), da Universidade de São Paulo (USP). “Nos últimos três meses, ele piorou muito”, contou sua mãe, Rita de Cássia de Almeida.

Vinícius teve a osteomielite – processo inflamatório do tecido ósseo produzido por bactérias produtoras de pus – diagnosticada no pé esquerdo ainda bebê. Antes dos 3 anos, fez a primeira amputação e passou a depender da prótese. Há cerca de seis anos a doença se manifestou no pé direito. Vinícius precisou de uma segunda prótese.

Essa peça ortopédica é distribuída no HC a pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS). Para conseguir uma outra prótese, que substituiria a primeira, gasta, ele precisou entrar na fila. “Sempre fomos muito bem atendidos aqui. Mas essa parte da prótese depende de convênio. Parece que o governo federal cortou a verba”, disse a mãe.

O pai de Vinícius, Elias Ramos de Almeida, diz que agora, depois da nova cirurgia de amputação, o filho terá uma outra etapa longa e difícil para superar: “A fila agora é mais demorada ainda. A prótese que ele vai precisar é mais difícil, mais cara. A gente sofre. Mas não vamos desistir, não”.

Em Belo Horizonte, uma consulta médica viabilizada pela camaradagem de um amigo médico, em um hospital da rede municipal, salvou a vida do irmão do serigrafista Vagner Monteiro Dionísio, 41 anos. Sem conseguir engolir nem uma gota d’água, ele precisaria esperar três meses no posto de saúde para uma consulta com o gastroenterologista. O paciente acabou diagnosticado com câncer de esôfago e iniciou o tratamento imediatamente.

“Quando chegou lá em casa o papel com o horário da consulta do gastro, no fim de dezembro, meu irmão já tinha feito cirurgia e estava na metade da quimioterapia. Imagina, a doença ia se proliferar”, conta Vagner.

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