Um barato que pode sair caro. Seguindo a via dos problemas de assistência do SUS e da crise financeira, que fez milhares de pessoas abandonarem planos de saúde, clínicas de bairro viram a oportunidade de crescer, principalmente, nos subúrbios das cidades. Autodenominadas “clínicas populares”, alguns desses espaços atuam na clandestinidade realizando serviços múltiplos, mas sem estrutura especializada e sem autorização de órgãos de classe como os conselhos de Odontologia (CRO) e de Medicina (Cremepe), além da Vigilância Sanitária.
Na competição entre placas e panfletos de preços baixos e gratuidade desse mercado intermediário da saúde, uma população ingênua não conhece os riscos aos quais pode estar exposta. “Essas clínicas cada vez mais estão oferecendo sem capacidade e sem responsabilidade serviços. Isso não traz segurança para os pacientes”, alertou a gerente da Vigilância Sanitária do Recife (Visa), Danielle Feitosa.
Como a atuação é irregular, não há dados oficiais sobre quantas são. Ela destacou que para funcionar qualquer serviço de saúde precisa de autorização da Prefeitura e da Vigilância para atestar as boas práticas do local. Num dos casos mais recentes, a Visa interditou duas unidades, sendo uma no Vasco da Gama e outra em Afogados.
Na clandestinidade, elas realizavam consultas clínicas, serviços odontológicos, coletas laboratoriais e exames de imagem. “Havia na porta uma placa sobre a realização de endoscopia, que é um procedimento extremante invasivo. Além disso, eles faziam raio-X fora das normas.” Danielle Feitosa destacou que irregularidades põe em xeque a confiabilidade dos resultados e podem, até mesmo, retardar o tratamento de pacientes ou adoecê-los.
Os conselhos de classe veem com preocupação esse cenário. “Temos visto essas clínicas aumentando, aproveitando o gancho nessa crise. Isso deve ser visto por dois prismas: a incompetência do Estado em garantir ao cidadão atendimento e a crise econômica geral”, avaliou o presidente do Cremepe, André Dubeux. É também aqui que a concorrência profissional se torna desleal e a atuação de falsos médicos e dentistas podem encontrar espaço. Neste sentido cabem aos Conselhos de Medicina e Odontologia punições administrativas, mas também o acionamento da polícia quando se trata do exercício ilegal da profissão.
A chefe de fiscalização do CRO, Berta Moreno, destacou que é uma atitude antiética a mercantilização da prática de saúde. No código de ética das categorias há regras sobre a propaganda. Berta alertou que a informação é a melhor aliada. “A pessoa acaba indo por conta do lado financeiro, porque é barato. Mas depois do procedimento, que acabou não sendo o esperado, na procura para denunciar”, contou.
Fonte: Folha de Pernambuco



