No dia 8 de dezembro de 1953, tornei-me médico pela Faculdade de Medicina do Recife. Naquele dia, o Jornal do Commercio publicava um artigo escrito pelo meu pai, Valdemar de Oliveira, sob o título “Obrigado meu filho!” Peço licença a sua memória e aos meus editores desta Folha de Pernambuco para transcrevê-lo, na íntegra: “Três horas mais, meu filho, você estará recebendo o seu diploma de doutor em Medicina. Eu estarei perto de você. Ao meu lado estará sua mãe. Estaremos ambos assistindo a esse momento culminante de sua vida que se resume num gesto, um simples gesto. Você estenderá o braço, receberá o documento e, depois, no anular da mão esquerda, o anel de esmeralda. Estará finda a solenidade. E o dever maior de nossa vida, cumprido. Em você, no seu coração, tudo será alegria. E alegria bem merecida. Em plena mocidade, você nem cuidará de volver as vistas ao passado. Somente o futuro interessa, num momento como esse. O nosso olhar, porém, recua no tempo, arrastado pelas doces reminiscências de sua infância, quando o víamos, de calças curtas, entrando no Ginásio Vera Cruz, das irmãs Maranhão. Mais tarde frequentando o Ginásio do Recife, do Padre Félix, ou o Oswaldo Cruz, de Doutor Aluísio. E, sempre, o mesmo aluno estudioso, querido de seus mestres, distinguido entre os primeiros da turma. Por fim, a Faculdade onde você acabou de polir suas armas para a grande luta da vida. Em nós, pois, os sentimentos dessa hora feérica do seu destino são um misto de alegrias e tristezas – a alegria de sua mocidade triunfante e a tristeza que, por vezes, nos assalta ao fim de uma tarefa plenamente realizada – tristeza que é um pouco saudade, saudade de você menino ainda, de você rapazote, saudade de um tempo em que éramos moços, também – e o dia de hoje estava tão longe, ainda. Neste dia, sentimos mais profundamente, que vamos passando, carregados pelo tempo, cuja neve começa a cair sobre os nossos cabelos, que cumprimos ajudados por Deus, a nossa tarefa; que a nossa vida não se perdeu – e continuará em você. Esse prêmio que você nos concede sem sequer imaginar a importância dessa dádiva. Pelo que, meu filho, por mim e por sua mãe, obrigado. Obrigado por tudo o que você nos dará, hoje; pelas lágrimas que nos fará chorar, pela alegria de que inundará nossas almas, pelas esperanças de que perfumará a nossa vida. Já podemos começar a descer o outro lado, lentamente. E seu será, ainda, o segredo de nossa velhice orgulhosa e feliz! Obrigado, meu filho!” Por isso coloquei o título de “Obrigado, meu pai!” neste artigo. Já se vão mais de 61 anos de minha formatura. Continuo grato a eles que já se foram, aos meus mestres em Medicina com os quais não convivo mais – nem um da Faculdade – aos colegas que continuam a me fazer honrar a esmeralda do anel e, até aos meus pacientes, razões de ser de minhas alegrias profissionais.
Fonte: Folha de Pernambuco



