Evitar a periferia e a medicina de família não é regra entre a nova geração de médicos. Rodrigo Lima, formado há 11 anos pela Universidade de Pernambuco (UPE), já atuou até como gestor de saúde, mas preferiu voltar a seu cargo de médico do PSF no subúrbio do Recife. Concursado, atende no posto do Córrego da Fortuna, em Dois Irmãos, Zona Norte. E completa a jornada dando um plantão semanal numa UPA.
“Na medicina de família, posso olhar os pacientes como um todo, como pessoas, não como doentes. Eu acho que é preciso conhecê-los bem para poder cuidar bem deles, e isso só se consegue com vínculo e com disponibilidade para vê-los quando precisam. Faço consultas mais longas uma vez que não preciso correr para garantir um bom salário, o meu é fixo”, diz. Ele conta que os dois empregos dão uma vida confortável. “E olhe que minha terceira filha nasce mês que vem. Depois que você descobre que não precisa ter um carro gigante, casa na praia e no campo nem ir à Europa todo ano ou para Miami fazer enxoval de bebê, fica mais fácil escolher o que eu escolhi, mas me vejo como uma minoria, infelizmente.”
Embora perceba que poucos colegas estão preparados para trabalhar como médico de família, reconhece, no entanto, que as condições gerais de trabalho também desmotivam. Há contratos precários, salários que poderiam ser melhores, postos caindo aos pedaços, famílias demais por equipe. “No Recife, os médicos de família têm o suporte de especialistas, com laboratórios, hospitais. No interior, muitas vezes são o único recurso”. Além de consertar tudo isso, ele acha que é preciso recrutar os médicos para o PSF nas faculdades.
Rodrigo não vê ameaça na entrada dos estrangeiros com diploma validado: “Há emprego sobrando no interior”. Mas entende que o problema é outro: “Em vez de criar um programa que direcione nossos bons médicos para lá, o governo opta por trazer estrangeiros, que precisarão dominar o português do interior, entender questões culturais de compreensão mais difícil para quem não está inserido. Mesmo que consiga bons médicos, sozinhos resolvem pouco”. Por outro lado, entende que a vinda dos estrangeiros pode gerar intercâmbio cultural. “Espanha, Portugal e Cuba são países com experiência importante em medicina de família.”
Fonte: Jornal do Commercio



