Organizações Sociais denunciam falta de recursos para manter UPAS e hospitais em PE

As Organizações Sociais (OS) que gerenciam serviços da saúde estadual quebraram o silêncio sobre a crise, que colocou em xeque o funcionamento de UPAs e hospitais. São oito instituições – Imip, Fundação Manoel da Silva Almeida/Maria Lucinda, Tricentenário, Santa Casa, Ipas, Apami, Fundação Altino Ventura e Sociedade Pernambucana de Combate ao Câncer – na gestão de 31 unidades entre UPAs, UPAs especialidades e hospitais. A maioria alega não ter condição financeira de manter a qualidade no atendimento por conta do atraso nos repasses mensais dos recursos. O custeio dessas unidades é feito pela Secretaria Estadual de Saúde (SES). O Ministério Público de Pernambuco deu um prazo até a próxima sexta-feira para que a SES apresente um cronograma de pagamento das OS.

As instituições adotaram estratégias para reduzir o custo e garantir o atendimento. Entre elas, a redução de profissionais em plantões. Os cortes atingiram médicos, principalmente pediatras, e assistentes sociais. Ontem, em uma carta aberta, o Imip relatou a dificuldade financeira. “A crise econômica atingiu seriamente a nossa instituição. Já vivenciamos em vários momentos muitas dificuldades financeiras. Mas a que enfrentamos agora não tem precedente na história cinquentenária do Imip. Continuar prestando uma assistência de qualidade à saúde da população tem sido um grande esforço alcançado todos os dias pelo sacrifício do conjunto dos nossos funcionários”, disse um trecho do comunicado. No Estado, a instituição ocupa lugar de destaque no volume de serviços com a administração de quatro hospitais, oito UPAs e três UPAs especialidades. Repete-se no IMIP os atrasos de salários e pagamento aos fornecedores.

O superintende-executivo da Santa Casa de Misericórdia, Fernando Costa, também relatou dificuldades financeiras. De acordo com ele, a UPA dos Torrões e o Hospital Regional de Ouricuri, unidades sob sua administração, amargam um déficit de R$ 1,8 milhão, cada uma – montante acumulado desde 2012 devido à falta de reajustes. Atualmente, o valor mensal repassado para as duas unidades é de R$ 1,2 milhão. “Em 2013, o Estado conseguiu pagar parte do déficit. É preciso verificar que de 80% a 70% do custo dessas unidades são com mão-de-obra, valor que sobe cerca de 10% por ano. Além disso, temos que pagar luz que teve uma alta de 35%. E a água, que também subiu. Essas despesas juntas pesaram. Tudo gera aumento de despesa e está acima do que temos de receita”, avaliou Costa.

Somado à defasagem de valor, os atrasos nos repasses também são um complicador para o serviço, que acaba não conseguindo pagar em dia os salários dos funcionários e os fornecedores. “Estamos quitando os salários que estavam há dois meses atrasados. Temos contado com a compreensão dos funcionários e de fornecedores. Todos estão num esforço grande”, confirmou. De acordo com Fernando Costa, não há desabastecimento nas duas unidades e a redução de quadro na UPA dos Torrões só diminuirá um pediatra noturno, que contava com dois.

Em nota, a Secretaria Estadual de Saúde (SES) reconheceu o momento delicado em que se encontram todas as instituições parceiras do SUS em Pernambuco e se comprometeu em criar soluções para enfrentar as dificuldades financeiras. A SES destacou que vem dialogando com todas as instituições para pactuar um cronograma de regularização dos repasses e encontrar saídas para o reequilíbrio financeiro.

No dia seguinte ao anúncio de um possível corte de R$ 9,1 bilhões para o Ministério da Saúde em 2016, o ministro Arthur Chioro foi demitido. E a redução do orçamento já preocupa os pacientes do Estado que precisam de tratamentos como de hemodiálise. Isso porque a alta e média complexidade, onde se encaixa o procedimento, pode ser alvo de uma redução de R$ 5,3 bilhões. A economia do ministério também aponta para o fim do cofinanciamento de medicamentos do programa “Aqui tem Farmácia Popular”, afetando os pacientes que têm Parkinson e precisam tomar Prolopa (remédio que controla os tremores da doença). Pelo programa, a medicação que custa em média R$ 70 a caixa, sai, em média, por R$ 7.

Em Pernambuco, 4,8 mil pessoas fazem hemodiálise. Entre eles Adeildo José dos Santos, 57 anos. “Se houver esse corte vamos ficar num inferno. E olhe que a situação já não é das melhores. Lamento, pois a atenção do governo com nós pacientes de hemodiálise já é quase nula”, disse Santos, que faz o tratamento há 12 meses. Natural de Camaragibe, ele vem três vezes por semana para o Recife, onde passa quatro horas tendo o sangue filtrado na máquina. Adeildo destacou que precisa da hemodiálise para sobreviver. “Sem isso não tem alternativa”.

A presidente da Regional Pernambuco da Sociedade Brasileira de Nefrologia, Maria de Fátima Carvalho, disse que o momento é de apreensão para todos. “Esse é um tratamento de manutenção da vida. Sem ele o paciente pode morrer em 48 horas ou alguns dias”, alertou.

A médica afirmou que os problemas na atenção ao paciente renal são antigos, uma vez que o número de doentes aumentou muito nos últimos anos, mas os de clínicas não. Isso gera serviços superlotados. “Parece que a atividade foi esquecida”, disse. Outra questão é um déficit da tabela SUS que paga por cada sessão de hemodiálise R$ 179, quando o custo real do procedimento seria de R$ 225.

Os pacientes de Parkinson também estão temerosos. “Se isso acontecer será complicado. Não temos muitos caminhos para conseguir o remédio. Quando não encontramos na Farmácia do Estado, temos como comprar no programa aqui tem Farmácia Popular. Sem ele, perdemos um caminho”, reclamou a paciente Maria do Carmo Pereira, que toma Prolopa. O remédio, afirma, dá certa independência. “Sem ele não consigo nem andar”, afirmou.

Fonte: Folha de PE

Compartilhe:

Deixe um comentário

Fique por dentro

Notícias relacionadas