O embate entre o governo federal e as entidades médicas sobre o Programa Mais Médicos sai cada vez mais do discurso sobre a necessidade da iniciativa e parte para acusações mais severas, com direito a manifestações explícitas de preconceito. Ontem, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, disse que um grupo de profissionais formados no Brasil “participou de um verdadeiro corredor polonês da xenofobia”. Padilha se referiu ao protesto feito em Fortaleza, na noite de terça-feira, na porta da escola onde médicos cubanos fazem o módulo de avaliação e treinamento.
De Natal, a jornalista Micheline Borges se encarregou de ser a porta-voz da intolerância ao postar, na manhã de ontem, no seu perfil do Facebook, o seguinte comentário: “Me perdoem se for preconceito, mas essas médicas cubanas têm uma cara de empregada doméstica. Será que são médicas mesmo? Afe, que terrível. Médico, geralmente, tem postura, tem cara de médico, se impõem a partir da aparência… coitada da nossa população. Será que eles entendem de dengue? E febre amarela? Deus proteja o nosso povo”. Com a repercussão negativa e cinco mil compartilhamentos, Micheline decidiu sair das redes sociais. Antes, publicou que era inteligente o suficiente para mudar de opinião.
O Ministério Público Federal do Distrito Federal (MPF-DF) instaurou inquérito para apurar denúncias de supostas violações de direitos humanos de cidadãos cubanos e solicitou informações ao Ministério da Saúde, que deve repassá-las em 15 dias.
No protesto ocorrido no Ceará, médicos brasileiros vaiaram profissionais cubanos que faziam o curso, e o secretário de Gestão Estratégica e Participativa do Ministério da Saúde, Odorico Monteiro, afirma ter sido agredido e levado uma ovada. Em nota, a Secretaria de Saúde do Estado do Ceará e o Conselho Estadual da Saúde descreveram que os manifestantes gritavam frases como “escravos, escravos”, “incompetentes, incompetentes”, “voltem para a senzala”. Alexandre Padilha lamentou veementemente a postura dos profissionais, que, segundo ele, “incitaram o preconceito, a xenofobia”.
“Os médicos brasileiros presentes no ato agrediram verbalmente os médicos cubanos, chamando-os de escravos, de incompetentes e mandando eles voltarem para suas senzalas”
Odorico Monteiro, secretário de Estratégia e Participação do Ministério da Saúde
“Os gritos eram para que nossos colegas cubanos não fossem explorados como escravos. Não falamos isso no sentido pejorativo, não foi um xingamento”
José Maria Pontes, presidente do Sindicato de Médicos do Ceará
“Me perdoem se for preconceito, mas essas médicas cubanas tem uma cara de empregada doméstica. Será que são médicas mesmo?”
Micheline Borges, jornalista do Rio Grande do Norte
Fonte: Diario de Pernambuco



