Há quatro meses, José Guilhermino dos Santos, 61, passou por um dos momentos mais difíceis de sua vida. Ele perdeu a esposa vítima de câncer, mas encontrou um pouco de conforto ao saber que poderia ajudar outra pessoa doando as córneas da companheira. A decisão foi apoiada pelas filhas e, assim, a família permitiu que alguém voltasse a enxergar. “Fiquei surpreso ao saber que era possível, mas disse na mesma hora: se é pela felicidade de alguém, eu autorizo. Minhas filhas concordaram, porque é assim que a gente faz o bem a quem nem conhece”, acredita o zelador.
Muita gente não sabe, mas portadores de câncer podem doar o tecido ocular após a morte. Apenas a leucemia impede a doação da córnea, a única parte do corpo que tem a chance de não ser comprometida pelos outros tipos da doença quando se trata de transplante. Para se ter uma ideia, 60% dos pacientes que vão a óbito no Hospital de Câncer de Pernambuco (HCP) estão aptos para o procedimento. Mas, até maio, nada era coletado no local. Para aproveitar esse potencial tão pouco explorado, a Central de Transplantes começou a incentivar a prática em maio passado. A esposa de José Guilhermino foi umas das primeiras doadoras – nos primeiros 15 dias de coleta foram três procedimentos. Em três meses, a unidade tornou-se o segundo maior centro doador de córnea do Estado.
Entre junho e agosto, a Comissão Intra-Hospitalar de Transplantes instalada no HCP recebeu 30 doações. Neste mesmo período, o número só foi maior no Hospital da Restauração (HR), que lidera os procedimentos em Pernambuco e comporta bem mais pacientes que o HCP. Mesmo assim, a diferença é pequena: somente quatro córneas a mais. Considerando o ano, a unidade já é a quinta maior doadora do tecido, mesmo com déficit de cinco meses em relação aos outros centros. Entre janeiro e agosto, o HR recebeu 110 córneas, o Imip, 60; o Hospital Regional do Agreste, 44; e o Pelópidas Silveira, 34.
“É impressionante como a adesão é grande. Isso se explica porque as famílias dos pacientes do HCP encaram o luto com mais tranquilidade. Elas recebem acompanhamento psicológico e, vendo a situação dos parentes, acabam aceitando a ideia. Quando descobrem que a doação é possível, acham incrível e não oferecem resistência. Já nos outros hospitais, muitas mortes acontecem de forma repentina. Por isso, os familiares ficam abalados demais e sentem dificuldade em pensar na doação”, acredita a coordenadora da Central de Transplantes Noemy Gomes, que torce para a prática ajudar a desmistificar o câncer. “Ainda há quem pense que esta é uma doença contagiosa e quase ninguém sabe que a doação é possível. Até os parentes ficam surpresos. Espero que isso ajude a diminuir o preconceito.”
O aumento nos procedimentos ainda tem ajudado o Estado a manter o status de fila zero na espera por transplante de córnea. Criado pelo Ministério de Saúde, o título indica os locais em que não é preciso aguardar mais de um mês pelo tecido. Esse nível foi atingido por Pernambuco em 2012, após um mutirão realizar 1.064 transplantes e zerar a lista de espera. “Hoje, são 80 transplantes por mês. Mas, às vezes, acontece de termos córneas e não termos pacientes. Semana passada, por exemplo, encaminhamos três doações para outros Estados”, conta Noemy.
Fonte: NE10



