Especialista em gestão empresarial, Gilberto de Oliveira Santos, 52 anos, estava no auge da carreira quando recebeu o diagnóstico que mudou radicalmente a sua vida. Gilberto começou a sentir os primeiros sintomas, pequenos tremores nas mãos, aos 44 anos de idade e decidiu procurar um médico. Passou por cinco neurologistas até descobrir, quase um ano depois, que tinha Parkinson. A doença evoluiu rápido e, nesse mesmo período em que procurou ajuda, os tremores aumentaram, atingindo os músculos da face e laringe, resultando na perda da fala.
A idade de Gilberto pode ter contribuído com a demora no diagnóstico. Considerada uma doença degenerativa, incurável, crônica e progressiva, o Parkinson é mais frequente em pessoas idosas. Geralmente, os sintomas surgem depois dos 65 anos de idade, mas cerca de 15% dos doentes desenvolvem o Parkinson antes dos 50 anos. A doença provoca a perda de neurônios do sistema nervoso central em uma região conhecida como substância negra, resultando a diminuição do neurotransmissor dopamina, responsável pelo controle dos movimentos.
Tremor, rigidez muscular e distúrbios do equilíbrio são alguns dos sintomas, que podem ser retardados através de tratamento medicamentoso. É por isso que nesta sexta-feira (11), quando se comemora o Dia Mundial do Parkinson, médicos e associações de pacientes alertam sobre a importância de desmistificar a doença e mostrar que, através de tratamento, é possível melhorar a qualidade de vida.
Para Gilberto, o momento mais difícil foi no dia que recebeu o diagnóstico.”Por que comigo? E por que tão cedo? Eu realmente não entendia. Estava me realizando profissionalmente, era convidado para ministrar palestras, também acompanhava o crescimento dos meus dois filhos”, afirma, ao lembrar o que passou pela sua cabeça quando saiu do consultório médico.
Mas o sentimento de insegurança e tristeza duraram pouco. “Posso deixar de falar e de escrever, mas nunca vou deixar de sonhar. Carrego comigo esse lema desde a primeira semana de tratamento”. E foi assim que, depois de começar a tomar as medicações, passar por várias sessões de fisioterapia e fonoaudiologia, Gilberto voltou a falar. Embora possua limitações de movimento, hoje ele tem uma vida ativa, presta serviços de consultoria e ainda escreve para o seu blog “A Turma do Treme Treme“. “Procuro mostrar que o Parkinson não é uma sentença de morte. Perdi um amigo da minha idade porque ele se entregou para a doença. Ele poderia estar vivo e feliz”.
A presidente da Associação de Parkinson de Pernambuco (ASP-PE), Terezinha Veloso, afirma que muitos pacientes têm dificuldade de assumir a doença. “É fundamental aceitar o tratamento, até porque além dos medicamentos, é necessário passar por sessões de fisioterapia, fonoaudiologia, psicologia e terapia ocupacional”, disse. Segundo ela, Pernambuco não possui nenhum levantamento sobre o número de pacientes no Estado. “O que posso afirmar é que a doença atinge 1% da população com mais de 65 anos”, disse. No País, segundo a Associação Brasil Parkinson, estima-se que 300 mil pessoas tenham a doença.
O professor aposentado João Batista da Silva, 67, também resolveu lutar. Descobriu que tinha Parkinson há nove anos e precisou deixar as salas de aula onde ensinava filosofia. Porém, decidiu ser voluntário em uma ONG, onde passou a dar aulas com menor duração e “mais informais”, sem precisar ficar muito tempo em pé. Também voltou a estudar na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde cursa letras. “Fui ‘premiado’. Além de Parkinson, tenho diabetes, três pontes de safena e ainda enfrentei o câncer de próstata. Nada disso me fez desistir de viver”, disse.
Segundo o neurocirurgião e pesquisador do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Antonio Marcos Albuquerque, o tratamento é fundamental para controlar a doença, mas sua evolução varia de acordo com o perfil de cada paciente. “Sendo uma doença degenerativa e sem cura, o tratamento busca manter a autonomia do paciente por mais tempo possível. Pessoas convivem com a doença por mais de 30 anos, mas tudo vai depender do quadro clínico. Porém, sem controle nenhum, o Parkinson pode evoluir rapidamente e levar o paciente à morte”, alerta.
CIRURGIA – O médico Antônio Marcos Albuquerque ressalta que, para os pacientes cujo tratamento medicamentoso já não é mais eficiente, existe a possibilidade de cirurgia, que pode melhorar em até 80% o controle dos movimentos. A cirurgia consiste no implante de um eletrodo cerebral, que recebe descargas de um gerador instalado no peito e diminui a progressão da doença, estimulando a região da substância negra.
Mesmo sendo garantida pelo Sistema Único de Saúde (SUS), muitos pacientes encontram dificuldade para fazer o procedimento, que custa mais de R$ 100 mil. Em Pernambuco, cerca de duas cirurgias são realizadas por mês no Hospital das Clínicas.
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Os sintomas iniciais do Parkinson são quase imperceptíveis e progridem lentamente, o que faz com que o paciente e seus familiares não consigam identificar logo as primeiras manifestações. Mas um dos primeiros sinais pode ser uma sensação de cansaço ou mal estar no fim do dia. A caligrafia pode se tornar menos legível ou diminuir de tamanho, a fala pode se tornar mais monótona e menos articulada e o paciente frequentemente torna-se deprimido sem motivo aparente. Podem ainda ocorrer lapsos de memória, dificuldade de concentração e irritabilidade. Dores musculares também são comuns. Confira abaixo as mudanças que devem ser observadas:
– Um dos braços ou das pernas movimentando-se menos do que o outro lado
– Expressão facial perdendo a espontaneidade (como se fosse uma máscara)
– Diminuição da freqüência com que a pessoa pisca o olho
– Movimentos mais vagarosos
– Tremor primeiro em um dos lados, usualmente em uma das mãos, mas pode se iniciar em um dos pés
– A memória e o raciocínio são geralmente afetados
– Rigidez – acontece porque os músculos não recebem ordem para relaxar. Pode causar dores musculares e postura encurvada
– Alteração no equilíbrio: a pessoa anda com a postura levemente curvada para frente, podendo causar cifose ou provocar quedas (para frente ou para trás)
– Voz: a pessoa passa a falar baixo e de maneira monótona
– Escrita: a caligrafia torna-se tremida e pequena
– Sistema Digestivo e Urinário: deglutição e mastigação podem estar comprometidas
– Depressão e déficit cognitivo
Fonte: NE10



