O agricultor Aguinaldo Pedro da Silva, 32 anos, chegou à Casa de Saúde João Paulo II, no município de Manari, no Sertão, desacordado. Foi atingido nas costas por um boi no sítio onde mora, desmaiou e foi socorrido pelos parentes. No momento em que deu entrada na unidade de saúde, não havia médico para atendê-lo. O corre-corre na frente do hospital revelou o drama vivido diariamente por centenas de cidadãos que precisam de atendimento de urgência. A falta de médicos no interior do estado é um problema crônico. Segundo a pesquisa Demografia Médica do Brasil 2013, do Conselho Nacional de Medicina (CNM), de 2000 a 2010, o número de médicos no Brasil chegou a 364,757, subindo 24,95% em uma década. No mesmo período, houve um aumento populacional de 12,48%. Porém, esse aumento de médicos não foi sentido por todos que precisam. Ficou concentrado na capital, deixando o interior à margem da atuação desses profissionais de saúde.
Já na ambulância da Casa de Saúde, ainda desmaiado, Aguinaldo seguiu para a cidade vizinha de Itaíba. Uma viagem de 32 quilômetros. Conseguiu ser atendido na Unidade de Saúde João Vicente e recobrou a consciência. Apesar de estar sem médico plantonista naquele dia, o hospital de Manari estava realizando atendimentos. Com capacidade apenas para realizar nebulização, suturas e curativos, o hospital é para onde a população vai quando precisa.
Manari, que já foi apontado como o mais pobre do país com base no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), conta com um posto de saúde na área urbana e três na zona rural, onde também faltam médicos. O aposentado Paulo Gomes, 63, morador do distrito de Cercadinho, recorreu ao hospital para tentar curar a dor de cabeça e a tontura que sentia. Foi medicado por enfermeiros.
Sozinha na enfermaria feminina, a dona de casa Maria Antônia da Silva, 82, tomava soro para melhorar da agonia que sentia. “Eu vivo doente e sempre venho aqui nesse hospital. Às vezes tem médico, às vezes, não”, revelou. De acordo com a diretora do hospital, Wilza Oliveira de Melo, a falta do médico plantonista em um dia da semana deve ser resolvida em breve. “Estamos com todos os plantões completos. A exceção foi esse médico que está de férias, mas vai chegar um substituto. Aqui na unidade o médico faz, em média, 80 atendimentos por plantão”, explicou a diretora.
Sofrimento também em Buíque
O município de Buíque, também localizado no Sertão, completa o retrato de descaso com a saúde pública nas cidades mais pobres do Brasil. Para conseguir ser atendido por um médico na Casa de Saúde Senador Antônio Farias, em frente à prefeitura, o paciente precisa chegar na madrugada. No entanto, o sacrifício não é garantia de atendimento. Muita gente volta para casa sem a consulta ou é obrigada a procurar socorro em outras cidades. A dona de casa Maria Monteiro dos Santos, 72, gemia com uma dor na perna. Esperava a ambulância da prefeitura para ir a Arcoverde. “Sofro de osteoporose e trombose e não encontro médico aqui. Faz dez anos que estou nessa situação. Precisei pagar R$ 280 para ser atendida por um médico particular”, reclamou.
De acordo com a secretária de Saúde da cidade, Fernanda Camêlo, irmã do prefeito, a situação é crítica. “É de chorar. Neste mês, para fazer o pagamento dos profissionais, pedimos mais dinheiro ao prefeito. Diante da situação enfrentada por vários municípios, não podemos atrasar os pagamentos porque os médicos acabam indo para as cidades que oferecem mais pelos plantões e pagam no dia certo. No fim das contas, a população da cidade, que é muito pobre, acaba sendo a maior prejudicada”, ressaltou a secretária.
Com uma população de aproximadamente 53 mil moradores, Buíque conta com dez unidades de saúde da família, uma unidade de saúde indígena e a Maternidade Alcides Cursino, que funciona como hospital filantrópico. Segundo o Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde, 215.640 médicos atuam no Sistema Único de Saúde (SUS), em serviços públicos municipais, estaduais e federais. Esse total representa 55,5% dos 388.015 médicos com registros ativos no Conselho Federal de Medicina (CNM).
Fonte: Diario de Pernambuco



