A violência contra a mulher maltrata, fere, mata e adoece. Em 2016, 118 mulheres chegaram à rede de proteção por dia para fazer uma denúncia. A cada 24 horas completas, quatro denunciaram um estupro, 71 foram vítimas dentro da própria casa de alguma tipo de agressão. Os números, por mais impactantes que sejam, ainda não refletem a realidade. A violência contra a mulher também paralisa e cala. Quebrar esse ciclo é fundamental para evitar casos de feminicídio, 253 no estado só em 2016 segundo dados da Secretaria de Defesa Social, mas depende do suporte da família, amigos, sociedade e instituições.
A estudante Maria (nome fictício), 24 anos, viveu o pesadelo de toda mulher. Saiu de casa e sofreu um assalto seguido de estupro. Recente, o fato ainda volta em flashes de memória incontroláveis. Maria não sai sozinha de casa e, diante de uma força extrema e com pausas longas na voz, tenta organizar na própria cabeça os fatos. “Recebi uma dose grande de violência, você fica perdida. Mas em contrapartida estou recebendo muito amor”, conta ela.
Maria foi uma das 12 mulheres atendidas nas duas primeiras semanas de 2017 no Centro de Atenção à Mulher Vítima de Violência Sony Santos, instalado no Hospital da Mulher do Recife, que reúne todos os serviços necessários, de exames a elaboração do boletim de ocorrência. Com seis meses de funcionamento, o local atendeu 113 mulheres em primeira consulta e 203 retornos. A maioria delas, 69, vítimas de violência sexual. “A gente tem certeza que esse número, considerável para seis meses, não reflete a real quantidade de mulheres agredidas. Nossa pretensão é atender o máximo de mulheres possível”, diz a diretora geral do HMR, Isabela Coutinho.
Ainda há dias em que o Sony Santos permanece vazio, à espera de atendimentos, quem observou foi a própria Maria.“Há o desconhecimento e a subnotificação. Eu poderia ter evitado uma série de burocracias, apesar de ter sido bem atendida na delegacia, se soubesse que aqui poderia ter realizado a perícia, o B.O. A empatia dos profissionais e a sensibilidade foram importantes”, conta ela.
O Sony Santos funciona 24 horas, com atendimento de saúde, psicossocial, registro policial e perícia legista. Desde a abertura do serviço, foram realizadas nove perícias sexuais e 13 traumatológicas, totalizando 22 boletins de ocorrência. Ou seja, um em cada cinco casos foram oficialmente computados nas estatísticas de violência.
A diferença entre casos e denúncias tem várias explicações. Uma delas é a violência moral, na qual a própria vítima não percebe o que está sofrendo. “Às vezes, o tratamento degradante faz com que a vítima entre em baixa autoestima, dependência emocional, e não consegue reagir”, exemplifica uma das coordenadoras do Grupo Frida de Gênero e Diversidade da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) Carolina Ferraz. A isso se somam a impunidade, que gera um sentimento de superioridade no violador, a dependência financeira, o histórico de pais violentos e a falta de sensibilização cultural com a causa.
Quando a violência adoece
Além do risco de vida, a violência contra a mulher também influencia na saúde física e mental das vítimas. Um estudo realizado em Pernambuco pela oncologista Cristiana Tavares, do Hospital Universitário Oswaldo Cruz (Huoc), mostrou que 42% do universo de mulheres pesquisadas sofreram alguma violência conjugal antes do diagnóstico de câncer de mama. Há ainda relatos, contam os profissionais da área, de doenças psicossomáticas, como dor renal, estomatites, problemas gastrointestinais, dores de cabeça, TPMs agudas, distúrbios hormonais e falta de apetite sexual.
Por isso é importante o apoio para quebrar o ciclo de violência ou para superar o trauma de uma violência vivida no passado, recente ou distante. “Cada mulher, cada história, cada contexto. Muitas vezes é a rede em que ela está cercada que define a possibilidade ou não de ela pedir ajuda”, ressalta a diretora Geral de Enfrentamento da Violência de Gênero da Secretaria da Mulher do estado, Bianca Rocha.
Um dos serviços do Sony Santos é justamente o atendimento a mulheres com histórico tardio de agressão física, sexual ou psicológica. Até então, o serviço contabiliza nove atendimentos nesse contexto: três identificados no ambulatório do hospital, dois durante a apresentação do serviço nas unidades de saúde e quatro foram mulheres que procuraram espontaneamente o centro após reportagens da imprensa.
Números
Centro de Atenção à Mulher Vítima de Violência – Sony Santos
- 113 atendimentos em seis meses
- 203 atendimentos de retorno
- 9 abortos previstos por lei
- 22 boletins de ocorrência
- O mês com mais atendimentos foi setembro
- A maioria das vítimas atendidas têm entre 19 e 29 anos
A violência contra a mulher em Pernambuco
Violência geral
2016 – 43,3 mil casos (3% a menos que em 2015)
2015 – 44,7 mil casos
Estupro
1,4 mil casos em 2016 (13% a menos que 2015)
1,7 mil casos em 2015
Violência doméstica
2016 – 26,2 mil casos (5% a menos que 2015)
2015 – 27,7 mil casos
Assassinato
253 casos em 2016 (13% a mais que 2015)
224 em 2015
Ranking dos tipos de violência mais atendidos
- 61% dos casos são de violência sexual
- 24,7% são de violência física
- 10,6% são de violência física e sexual juntas
- 3,5% são de violência psicológica
Onde procurar ajuda
- Ouvidoria das Mulheres
Por telefone: 0800.281.8187
Obs: O atendimento por telefone é gratuito e funciona 24h, todos os dias da semana. Você pode ligar de telefone fixo ou móvel. - Pelo site:
www2.secmulher.pe.gov.br/web/secretaria-da-mulher/ouvidoria#TOPO - Por e-mail:
ouvidoria@secmulher.pe.gov.br - Presencial ou ofício:
Rua Cais do Apolo, nº 222 – 3º Andar. Bairro do Recife – Recife - Hospital da Mulher do Recife (Sony Santos)
Centro de Atenção à Mulher Vítima de Violência Sony Santos
Rodovia BR-101, s/n – Curado (Hospital da Mulher do Recife)
Fone: (81) 2011-0100
Fonte: Diario de Pernambuco



