Num País de doentes que penam por assistência básica e respeito, onde o sistema público de atendimento está muito aquém do necessário, não causa surpresa o levantamento do Conselho Federal de Medicina. Pelo menos mil postos de saúde no Brasil encontram-se sucateados.
A condição de penúria é tão vexatória que em muitos casos faltam itens de higiene. Sem falar no material indispensável, como seringas, que faltam em nada menos que um terço das unidades. Medidores de pressão arterial, curativos, vacinas e diversos remédios também foram procurados sem sucesso. Os prédios que abrigam os postos apresentam, em alguns casos, tantos sinais de deterioração que é difícil acreditar que ali presta-se algum tipo de serviço público. O cenário de abandono nos postos indica o nível do descaso a que está submetida a saúde pública em nosso País.
Se o médico precisar ver um exame de raio X, em 52% dos mais de dois mil postos visitados não há equipamento de luz. Outro instrumento elementar, o estetoscópio, não está disponível em 29% das unidades. A esterilização é um procedimento que não pode ser feito em 25% dos postos. O desabastecimento de remédios nesses locais, em que a busca pelo medicamento quase sempre se dá em virtude de necessidades urgentes, deixa os cidadãos revoltados. Com toda razão. Quando o médico do posto receita algo que não pode ser fornecido gratuitamente ali, na hora, os pacientes ficam sem ter o que fazer, se não são capazes de arcar com a despesa imprevista.
No Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde, do governo federal, as informações que deveriam estar atualizadas não batem com a realidade. Há registros de postos funcionando com menos da metade dos profissionais informados. Se é assim que a política nacional de saúde é monitorada, não é de admirar a condição lastimável do atendimento no País. Pior ainda se o cadastro servir de base para a distribuição de recursos para a atenção básica – o que resultaria em fraude.
Diante do descalabro, o presidente do Conselho Federal de Medicina, Carlos Vital, relaciona corretamente a superlotação dos hospitais do Sistema Único de Saúde (SUS) à precariedade na estrutura dos postos. É uma questão de lógica, e também de desumanidade: sem ter o atendimento básico perto de casa, em seu próprio bairro, o cidadão é obrigado a se deslocar para os centros maiores, onde termina submetido a mais estresse e descaso, devido à superlotação. A demanda explode nos hospitais, entre outros motivos, porque os postos expulsam as pessoas sem cuidar delas. O atendimento nos postos deveria ser priorizado por ser mais próximo da residência do paciente, e reduzir o fluxo nas emergências da rede hospitalar. No entanto, o relatório do Conselho Federal de Medicina mostra o quanto o sucateamento da saúde avançou, como uma epidemia sem controle, no Brasil.
Fonte: Jornal do Commercio



