Suzana Azoubel*
Cada sociedade tem sua concepção de normalidade. A loucura, representando todos os malogros dos quais se quer ver livre uma sociedade, cumpre seu papel redentor. Em muitas épocas foram usados códigos morais, religiosos e políticos para ajuizar sobre normalidade e loucura, e isso sempre foi desastroso. Quando é facultado aos “sãos” sua definição, a sentença de loucura recai sobre os que fogem aos ditames vigentes e, via de regra, recai sobre os mais “fracos”.
Não deixa de ser um exercício de poder. Talvez a absoluta isenção no julgar seja uma utopia, mas é um ideal a ser perseguido. A ciência procura fazer exatamente isso, põe hipóteses em prova para encontrar as verdades, mesmo sabendo da fugacidade delas. Novas tecnologias de investigação podem refutar os achados anteriores. A ciência não segue ideologias, não tem dogmas.
Reflexão, crítica e dúvida propulsionam a busca de novos conhecimentos. Todos nós reconhecemos e nos locupletamos com os avanços tecnológicos, vibramos ao saber de novas técnicas cirúrgicas, de novas vacinas, das inúmeras possibilidades de tratamento oferecidas pelas células-tronco. Não é nada razoável, no sentido mesmo da razão, que alguém afirme, como o fez o deputado Delgado, que não há doença mental, que o que há é a criação, pelos psiquiatras, de categorias diagnósticas fajutas que servem apenas aos interesses pecuniários desses médicos, meros fantoches da indústria farmacêutica interessada em inventar doenças para vender remédios. Em outros tempos, vá lá, mas agora, no século 21?
Os avanços da biologia molecular, da genética, o surgimento de novas ferramentas de imagem, deram à psiquiatria o status de ciência médica. Não há como refutá-los, a não ser pelo próprio desvendar de outros achados por técnicas cada vez mais modernas, mas nunca para usar a população como massa de manobra. Negar o caráter médico dos transtornos mentais é um retrocesso em muitos séculos. Volta-se à Idade Média, quando queimavam-se todos que se interpusessem contra os interesses da Igreja.
Para Delgado, os psiquiatras são a encarnação do demônio e o hospital psiquiátrico, o próprio Inferno. Ele quer extinguir a doença mental por decreto. Quisera Deus que fosse tão fácil. Ora, a esquizofrenia é tão doença quanto a hipertensão arterial, o transtorno do pânico é tão doença quanto a diabete. Ao reconhecermos o caráter médico dos transtornos mentais, derrubamos preconceitos e tabus. Mais ainda, damos ao paciente a possibilidade de tratamento.
*Suzana Azoubel é psiquiatra e vice-presidente da Sociedade Pernambucana de Psiquiatria
Fonte: Jornal do Commercio



