Quando a saúde vira um luxo

Entre as muitas formas de se manifestar, a crise econômica brasileira pode ser medida pela evasão de beneficiários de planos de saúde privados, a saúde suplementar, à qual nos tempos de vacas gordas sempre esteve associado o conceito de um bom emprego. Era – e é ainda para milhões de pessoas – um benefício valorizado pela assistência oferecida ao trabalhador e a sua família, supostamente sem os atropelos do Sistema Único de Saúde – um notável mecanismo de universalização de atendimento que tropeça na qualidade do serviço prestado. Agora, em tempo de vacas magras, com a queda no nível de empregos, é ele, o SUS, que supre o direito constitucional à saúde, independente da qualidade nos hospitais superlotados e cada vez mais frequentemente substituindo o que o usuário não consegue através da saúde suplementar.

Os números não deixam dúvida quanto ao diagnóstico do setor: em 2015 mais de 760 mil brasileiros deixaram de ter um plano e até março deste ano a Agência Nacional de Saúde Suplementar informava que 1,3 milhão de brasileiros tinham deixado de ter planos de assistência médica nos últimos 12 meses. O diagnóstico hoje não traz sinais animadores de que esse mal seja estancado em um cenário desestabilizado com mais de 10 milhões de desempregados. Apesar desse quadro sombrio, porém, Solange Beatriz Palheiro Mendes, presidente da Federação Nacional de Saúde Suplementar, sinaliza com inesperado otimismo: ela acredita que até o final do ano esse setor pode recuperar as perdas de beneficiários.

Em um panorama esquizofrênico de crise, é bom que haja algum sinal de otimismo como o da dirigente da FenaSaúde, mas para quem está do outro lado do balcão, vivendo a ansiedade de um mercado de trabalho inseguro ou para quem perdeu o que tinha e agora vê como única meta recuperar a assinatura de uma carteira de trabalho – venha ou não acompanhada do sonhado plano de saúde – para esses na espera de melhores tempos o único consolo é a possibilidade de manter as condições de cobertura assistencial enquanto o benefício for ofertado aos empregados ativos, seguindo requisitos a que nem todos têm acesso, como ter sido beneficiário de plano coletivo e assumir o pagamento integral do benefício.

Disso se tira a conclusão mais evidente: a de que o plano de saúde que já era seletivo está se transformando em um bem de luxo que tende a ser mais valorizado na medida em que a economia retomar os trilhos, uma perspectiva ainda sombria nas análises que apontam para mais uma retração do Produto Interno Bruto, um indicador de que a saúde da nação não anda bem, principalmente quando se sabe que os planos coletivos empresariais foram responsáveis por 52,85% de todos os beneficiários que deixaram de ter plano de saúde em 2015. Em outras palavras, a crise do desemprego é um dos principais sintomas dos males da economia, que abalam a saúde das empresas e dos trabalhadores.

Fonte: Jornal do Commercio

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