Quando chega a esperança

O expediente acaba no posto de saúde do distrito rural de Logradouro dos Leões, no pobre município de Bom Conselho, Agreste de Pernambuco. A fila continua quase imexível e a população se organiza amistosamente por ordem de chegada. A médica cubana Nancy Peña Lopes, responsável por um universo de duas mil pessoas, demonstra disposição para estender o atendimento além das sete horas diárias obrigatórias e corridas determinadas para quem está lotado em áreas mais isoladas. Os auxiliares se vão; ela, fica. A população, necessitada, a aguarda. A “precisão”, para usar expressão interiorana, encontra o jeito nordestino de ser e quando Nancy mal espera chega um pedaço de bolo, uma caneca de café, um apoio moral para dar sustança à jornada extra. Nancy, cuja função é a de clínica geral, virou personalidade local, contam profissionais de saúde que trabalham com o programa Mais Médicos, do governo federal.

Ela foi uma das duas médicas cubanas que passaram a morar em Bom Conselho em 2013. Na época, o assunto foi notícia em tudo que é esquina. Na rádio, um ouvinte se admirava porque os novatos tomaram como hábito seguir a trilha dos agentes de saúde e passaram a ir de casa em casa ao encontro das pessoas. “Vi várias vezes pacientes idosos chorando com a visita dela ou da outra médica. A maioria dizia que nunca recebeu um médico”, conta-me o diretor de planejamento da Secretaria de Saúde de Bom Conselho, Thiago Donato, que foi procurado para confirmar a história narrada por populares e profissionais. “É verdade. A comunidade passou a se sentir prestigiada. São profissionais que demonstram carinho, afeto pelos pacientes e isso é muito importante para um doente”.

Debates sobre prejuízos à classe médica à parte, quem passou anos à margem do sistema, quem viveu tempos como órfão de médicos nos cafundós nordestinos por motivos diversos, vai comemorar a notícia de que mais 309 profissionais do polêmico programa irão reforçar o time de atendimento básico à população de 82 municípios do estado. Ontem foi divulgada a lista dos beneficiados e dá para imaginar o impacto que essa notícia terá sobre cidadãos de rincões ou de recôncavos mais excluídos das capitais. Bom Conselho está no rol e terá um reforço importante: ganhará mais três. Teve prioridade no atendimento do Ministério da Saúde por ter “20% ou mais da população vivendo em extrema pobreza”, de acordo com o Ministério do Desenvolvimento Social.

Contei outros 42 dos 82 municípios em condição semelhante. Curiosa para saber o quão vulneráveis são, para mensurar ainda que superficialmente o grau de interesse da comunidade, pesquisei o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) no mais recente Atlas da Organização das Nações Unidas (ONU). O pequeno município de Tupanatinga, situado no Agreste e com apenas 24.425 habitantes (conforme Censo do IBGE de 2010), destaca-se pelo menor indicador, que indica ser ele o mais pobre entre os elencados. Tupanatinga tem IDH de 0,519 – considerado “baixo”. Nas últimas duas décadas registrou melhoria maior em educação, na longevidade das pessoas e na renda, mas o quadro geral de lá ainda é bastante crítico.

Tupanatinga receberá três novos médicos. Hoje existem dois já atuando no município pelo Programa Mais Médicos. Como existem apenas cinco equipes de saúde da família para cobrir  todo o território, ficarão os cinco do Mais Médicos mais os contratados atendendo a população.
Sei quais são os argumentos dos sindicatos e associações dos profissionais de médicos brasileiros e de vários daqueles contrários ao programa. Não vou entrar no mérito dessa discussão neste artigo. Por uma comunidade que passa a contar durante quatro dias da semana com o médico com carga horária de sete ou oito horas/dia, em zona urbana ou rural, acho que agora o momento é apenas de comemoração pela esperança que se renova com os 309 médicos que passam a engrossar a fila dos que já se dedicam aos mais excluídos em Pernambuco.

Fonte: Diario de Pernambuco

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