Um grupo de trabalho será formado na Assembleia Legislativa (Alepe) para pleitear ao Ministério da Saúde (MS) a interrupção do uso de uma versão do medicamento L-asparaginase produzida em um laboratório chinês e que, segundo estudiosos, carece de garantias de eficácia. O acerto foi feito na última terça-feira (13), numa audiência pública que discutiu o tema no Recife.
Só no Imip, em Pernambuco, conforme informações divulgadas na audiência pública, a demanda de L-asparaginase é de 150 doses por mês. Parte do público, ainda não se sabe quanto, já estaria usando a versão chinesa do medicamento.
O professor Geraldo Maia, 39 anos, representa um grupo de pais que criou um site para falar sobre o câncer infantil e está preocupado. “O que assusta é que ainda está se discutindo a eficácia da droga, mas nossas crianças já estão tomando. Não sei se é caso de corrupção ou de incompetência técnica”, avalia ele, pai de Felipe, 3 anos, que tem leucemia.
A importação da L-asparaginase alemã ocorria desde 2013. Uma das explicações para a interrupção foi a de que o insumo vem sendo descontinuado no mundo todo e que seu distribuidor no Brasil não havia atendido aos requisitos para lançamento de outro remédio com o mesmo princípio ativo. Com isso, foi aberta uma concorrência, vencida pelo laboratório chinês.
A distribuição no SUS começou em março. Foi quando surgiu a polêmica. O Centro Boldrini, de Campinas (SP), referência na América Latina, decidiu não usar o insumo asiático em seus pacientes. A presidente da instituição, Silvia Brandelise, esteve na audiência de ontem. “É um produto só experimentado em animais e que está sendo usado nas crianças brasileiras para ver se funciona ou não. Procuramos laboratórios que comprovaram que o medicamento alemão tem 0,5% de impurezas, e o chinês, quase 50%.”
Membro da diretoria do Conselho Regional de Medicina (Cremepe), Sílvio Rodrigues diz que o caso é alvo de uma denúncia protocolada na entidade. “Mais que discutir a aplicabilidade, está na hora de cobrar a substituição dessa medicação. Já há crianças usando e correndo risco de uma recaída”, alerta. No mesmo sentido, a deputada e pediatra Socorro Pimentel, que presidiu a sessão na Alepe, teme pelo que está por vir. “Não sabemos como vai ser a resposta ao tratamento daqui a alguns meses.”
Em nota, o MS informou que 22 unidades federativas, entre elas, Pernambuco, já estão usando o Leuginase (chinês) e que, “até o momento, não houve nenhum efeito diferente do esperado pela literatura disponível”. Já sobre os testes, o ministério disse que o produto “mostrou capacidade esperada de ação contra o câncer” e que “não foram encontrados contaminantes bacterianos, ou seja, aqueles que podem causar danos aos pacientes”.



