“Saúde da Família deve ser para todos”

ENTREVISTA – ALEXINA DE PAULA WITT

Veronica Almeida

Dos 25 anos de SUS, quase 20 são do Saúde da Família, estratégia iniciada nos anos 90 para levar assistência médica às comunidades. Alexina de Paula Witt é da primeira turma de médicos que implantou o programa em Camaragibe, Grande Recife, conseguindo reduzir a mortalidade infantil. A série de entrevistas sobre o futuro do SUS, que começou no segundo domingo de julho com o ex-ministro José Gomes Temporão, prossegue hoje com as impressões dessa praticante da medicina de família, que herdou o inconformismo com as desigualdades sociais (é neta de Francisco Julião, das Ligas Camponesas). Ela se diz angustiada com o cenário atual, marcado pelo corporativismo de parte dos colegas, mas acredita que o programa vai sobreviver.

Jornal do Commercio – Temporão diz que todo servidor, juiz e deputado deveria usar o SUS. O Saúde da Família deve ser para todos?

ALEXINA – Eu passo por esse dilema. Poxa vida, trabalho no sistema público desde que me formei, há 22 anos. Faço o possível para exercer uma boa medicina, dar uma boa assistência às pessoas. E, no entanto, eu mesma pago plano privado, fico com medo de não ter a assistência que preciso numa emergência, embora, quando um filho ou meu marido adoece, procuro um serviço público perto de casa. No início, o Saúde da Família foi implantado na periferia e bairros mais pobres porque era a população mais necessitada, mas a ideia era ampliar para todo o Brasil. Só que não chegamos nesse ponto, ainda vamos chegar, eu espero. Deveria ser para 100% da população, para que o governo deixasse de financiar a saúde privada. A ESF não é para pobres, mas para melhorar a saúde da população como um todo.

JC – Como foi sua entrada no Saúde da Família?

ALEXINA – Eu me formei pela Universidade de Pernambuco e fui para São Paulo. Quando voltei fiz a seleção na implantação do PSF em Camaragibe e deu certo. Naquela época, ninguém era especialista, não tinha médico de família. Todos nós começamos do zero e cavando o caminho. A medida em que a gente se inseria, estudava, aprendia muito com as pessoas e a comunidade, as coisas foram evoluindo e a medicina de família foi se estabalecendo como especialidade. Hoje tenho título de especialista, fui me aperfeiçoando. Trabalhei 16 anos em Camaragibe e há agora sou concursada no Recife (trabalha na UR-3, Ibura). O que me fez médica de família não só foi o título. Por mais que você tenha estudo, tem que haver a vontade e a vocação para exercer a medicina de família, que é a medicina para as pessoas, não é a medicina para os pacientes.

JC- Qual a diferença da medicina focada no doente da que lida com pessoas?

ALEXINA – O vínculo. Eu conheço dona Maria, que é mãe de João, que morreu assassinado, que é irmão de dona fulana, que teve um câncer de mama… Cuidando da pessoa, o médico tem uma visão mais ampla dela, de alegrias, tristezas, das mortes e nascimentos de cada família. Se a gente não consegue ver a pessoa como um todo, não tem entendimento da situação, do que gera doença. Eu tenho que conhecer aquela pessoa na realidade dela, onde ela vive, mora, como é que ela é feliz, sofre, com ou sem doença. No ambulatório não há como viver isso. Não estou menosprezando a necessidade de especialistas, de hospitais. A gente precisa deles. Mas é diferente quando você vai à casa da pessoa, a conhece pelo nome todo. Não precisa abrir o computador para saber o histórico do paciente, eu lembro da história daquela pessoa e isso ajuda no processo de trabalho e de cura, não no sentido científico, mas de melhora emocional.

JC – Por que seus pares reclamam da estrutura? O que justifica a falta de médicos ?

ALEXINA – A infraestrutura e o salário são importantíssimos sim, principalmente para quem é médico de família com dedicação exclusiva, que dá 40 horas semanais na comunidade, só vive daquele salário, não tem extra, plantão. Não discordo dos meus colegas, mas não justifica deixar de fazer um trabalho porque a infraestrutura está ruim. Não estou dizendo que é para permanecer nisso nem lutar por melhores condições. Quando comecei a trabalhar em Camaragibe, eu, outros médicos e profissionais de saúde, começamos em casinhas de vila, na base do ventilador, e a gente só tinha o estetoscópio, o tensiômetro, a balança, o básico para fazer o atendimento e a gente fez. Em Camaragibe caiu de 50 para nove por mil nascidos vivos o número de mortes de crianças menores de um ano. É claro que hoje estou adorando estar no ar-condicionado, numa mesa bonitinha. Mas acho que o trabalho precisa ser feito, é uma questão ideológica.

JC – A nova política do governo quer obrigar o trabalho na atenção básica. Você concorda?

ALEXINA- Sou favorável a discutir e remodelar os currículos de medicina nas universidades para começar a mostrar ao estudante a realidade brasileira, dar uma visão mais geral e colocá-lo na comunidade cedo. Quem sabe ele vai despertando. De repente um jovem que nunca pensou em trabalhar na comunidade, quando chega lá, conhece as pessoas, desperta. Eu já trouxe isso de berço, a forma como fui educada, a ideologia política da minha família me ajudou a querer desse jeito. Não é todo mundo que vai ter isso e a forma como fui criada não é a única que faz todo médico optar por esse trabalho.

JC – A equipe de ESF deve ter apenas agente de saúde, médico, enfermeiro, dentista?

ALEXINA – A equipe básica, incluindo o dentista, quando trabalha bem integrada, já resolve 80% dos problemas. Tem dias que sinto a falta de um psicólogo, de um fisioterapeuta, de um nutricionista, pois temos muitos idosos acamados. O Núcleo de Apoio ao Saúde da Família (Nasf), que tem esses profissionais, precisa ser ampliado. Do jeito que está, não dá o suporte desejado. Em 1995 tinha muito mais crianças desnutridas e doenças infecto-parasitárias do que hoje. Agora há muito mais idosos e doenças crônicas. Penso, por exemplo, em fazer um curso de cuidados paliativos. A gente tem que estar se moldando para dar a assistência de qualidade.

JC – O que você espera do futuro?

ALEXINA – Tenho a impressão de que o governo não está dando o suporte que deveria dar. É prova que a ESF dá certo, já obteve tantos avanços que não vão conseguir acabá-la. A gente tem que continuar na luta. A gente está passando por uma crise, mas as pessoas estão acordando. É preciso melhorar o financiamento.

JC – Concorda com o Mais Médicos?

ALEXINA – É fato indiscutível que não existem médicos suficientes no Brasil e os que existem estão mal distribuídos. O Mais Médicos não é solução, mas seria uma medida emergencial, com médicos avaliados previamente, uma vez que há comunidade sem assistência. Os colegas que só dão 12 horas, fazem empurroterapia, não têm condições de criticar. Por outro lado fico chateada ao saber que o profissional do Mais Médicos, que acabou de se formar, vai ganhar mais do que eu, que sou especialista e estou há mais tempo no Saúde da Família. Ele receberá R$ 10 mil líquidos e eu ganho R$ 10 mil brutos, que com descontos, chegam a R$ 7 mil. Ao mesmo tempo tenho raiva do discurso corporativista. Talvez os cubanos fiquem, eles têm a formação, são médicos de família, estão acostumados a trabalhar em condição adversa. Estão com medo que os cubanos venham porque vão dar conta do recado. A discriminação com eles é maior por isso.

JC Porque trocou Camaragibe pelo Recife?

ALEXINA – O vínculo era precaríssimo em Camaragibe. São importantes concurso e carreira única, chega um momento em que a gente se preocupa com o futuro. Como vou me aposentar com um salário base de R$ 1.800? Não dá. Foi muito difícil para mim mudar de cidade. Quando o vínculo é mais seguro a gente tem como brigar mais, botar o pé no chão, mostrar evidências científicas, fica mais tranquilo.

Fonte: Jornal do Commercio

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