Saúde itinerante nas ruas do Recife

Esta semana foi especial para a psicóloga Ariana Melo. Depois de várias tentativas, ela conseguiu encontrar um jovem de 18 anos, que vive em situação de rua desde os 12, quando descobriu a cola, a maconha e o crack. Após longas conversas, Ariana o aconselhou a frequentar o Centro da Juventude de Santo Amaro, escola profissionalizante ligada ao governo estadual que tem como público-alvo jovens em condição de vulnerabilidade. O trabalho da psicóloga é fruto do serviço Consultório na Rua (CnaR), uma política do Ministério da Saúde adotada pela Prefeitura do Recife em maio e que tem como foco lidar com as necessidades e os problemas de saúde da população em situação de rua, ao oferecer atenção integral à saúde de forma itinerante, através de duas vans que circulam pela cidade para abordar esses indivíduos.

Passados cinco meses, o CnaR já conseguiu cadastrar no Recife 200 pessoas que vivem em situação de risco, como aquelas que são usuárias de drogas e as que possuem algum transtorno mental. A estratégia também tem como meta oferecer assistência à saúde e proteção social aos moradores de rua que convivem com problemas de pele, feridas, tuberculose, aids e sífilis, além de outras doenças. Gestantes em situação de vulnerabilidade social também são beneficiadas. “O objetivo do nosso trabalho não é tirar essas pessoas da rua, mas abordá-las e monitorá-las em relação às condições de saúde. Para isso, contamos com os veículos que agilizam a nossa aproximação com esse público. Também temos como meta oferecer espaço seguro para cada indivíduo ocupar o tempo de maneira produtiva ao longo do dia”, diz a coordenadora do CnaR da Prefeitura do Recife, Brena Leite.

No Centro da Juventude, por exemplo, o jovem de 18 anos citado no início da reportagem será um dos alunos dos cursos profissionalizantes. “Quero aprender a montar meu próprio negócio para sair da rua, voltar para casa e largar as drogas”, conta o rapaz, que já vendeu bombons nos ônibus e quer voltar ao comércio de forma organizada. Dessa maneira, as equipes do CnaR acreditam que é possível monitorar o adolescente para que ele deixe de lado a cola, a maconha e o crack. “Vamos acompanhar todo o processo para evitar que o rapaz abandone esse trabalho de assistência e recuperação”, diz Ariana. Assim como o jovem, outras 80 das 200 pessoas cadastradas são atendidas mensalmente. Elas formam um público de pobreza extrema, com vínculos familiares interrompidos ou fragilizados, que faz das calçadas seus lares.

Quando precisam de atendimento médico (necessidade identificada pelas equipes do CnaR), essa população conta com a Unidade de Saúde da Família dos Coelhos II, área central do Recife, e a Unidade Dom Miguel de Lima Valverde, em Boa Viagem, na Zona Sul. Ambas atendem pessoas em situação de rua dos Distritos Sanitários 1 (Recife, Santo Amaro, Boa Vista, Cabanga, Ilha do Leite, Paissandu, Santo Antônio, São José, Coelhos, Soledade e Ilha Joana Bezerra) e 6 (Pina, Boa Viagem, Brasília Teimosa, Imbiribeira, Ipsep, Jordão, Ibura, Cohab). “Quando acontece de exames ou atendimentos de alta complexidade não serem oferecidos por essas unidades, é feito um encaminhamento para laboratórios especializados, Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e outros pontos de atenção da rede municipal”, afirma Brena.

A gestora acrescenta que a maior parcela do público do CnaR está espalhada pelas Praça Maciel Pinheiro, Rua do Imperador, Ponte do Limoeiro, Praça do Diario, Rua da Glória, Canal de Setúbal e Aeroporto do Recife. Diariamente, duas equipes se revezam nas duas vans, em horários diurnos e noturnos, para ir ao encontro de jovens, adultos e idosos em condição de vulnerabilidade social que se encontram nessas regiões.

EQUIPE

“A população conta com um psicólogo, um assistente social e dois agentes sociais, que formam uma espécie de cinturão de proteção para identificar essas pessoas e monitorá-las. Acompanhamos, por exemplo, o tratamento de quem tem tuberculose. Sempre verificamos se estão tomando a medicação corretamente”, diz Brena. Por enquanto, a Prefeitura do Recife não pretende ampliar a área atendida, pois alega que os Distritos Sanitários 1 e 6 já compreendem boa parte da população recifense em condições de risco e vulnerabilidade à violência, ao abuso sexual, a doenças e às drogas.

Fonte: Jornal do Commercio

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