Sem bolsas coletoras, pacientes ostomizados improvisam

Maria Madalena, vice-presidente da associação

Sem o produto que serve para recolher dejetos, os cirurgiados estão usando sacolas plásticas e até latas de refrigerante no lugar

Há quase seis meses sem receber bolsas coletoras e anos a fio no aguardo para a cirurgia de reversão. Essa é a realidade de milhares de ostomizados de Pernambuco. Homens e mulheres que têm vivido um dia a dia de risco de vida e drama diante da ausência do sistema de saúde, após terem parte do intestino exteriorizado para eliminação de fezes e gases. Pela conta da Associação dos Ostomizados de Pernambuco (Aospe), são mais de 2 mil pessoas nessa situação dramática apenas no Hospital Barão de Lucena (BHL), longes ainda de uma solução, mesmo com a intervenção recorrente do Ministério Público Estadual de Pernambuco (MPPE) e Defensoria Pública da União.

“Desde novembro não recebemos as bolsas e nada da situação ser resolvida. Estamos nos humilhando por bolsas. Tem gente usando sacola plástica, caixa de margarina e até lata de refrigerante para substituir, porque não recebe o material do governo”, reclama a vice-presidente da Aospe, Madalena Vasconcelos. Este tipo precarização coloca em xeque não só a autonomia dos pacientes, mas a saúde, uma vez que ali está aberta uma porta para contaminações diversas. O item mais barato, segundo ela, custa entre R$ 14 e R$ 17 e precisa ser trocado em até três dias no máximo, mas o ideal seria a substituição diária. Sem condições financeiras, muitos fizeram as adaptações dos utensílios domésticos e outros vêm comprando o insumo com ajuda de doações.

Além da falta dos kits de manutenção e higienização das ostomias, outro problema grave é a demora na realização das reversões cirúrgicas dos ostomizados temporários, isto é a recolocação do intestino dentro do abdômen e interligação com o reto. “Meu marido espera uma vaga faz quase um ano e meio e só dizem que não tem vaga. Ele já poderia estar livre, mas ainda hoje enfrenta a falta da bolsa e da operação”, contou a dona de casa Patrícia Freitas, 39, sobre a situação do marido Claudemir, 40.

O homem tinha tumorações no intestino que regrediram e já poderia ser reoperado. Madalena Vasconcelos afirmou que a reversão deve ser feita no mesmo hospital onde o paciente fez a colostomia. De acordo com ela, o procedimento no SUS estadual é realizado nos hospitais da Restauração (HR), Otávio de Freitas (HOF), Barão de Lucena (HBL) e Agamenon Magalhães (HAM), com gestão estadual, e Hospital das Clínicas (HC), que tem comando federal. “Aos poucos estamos tentando articular com os serviços essa demanda. Mas, no Otávio de Freitas, está bem complicado, com muitos pacientes na espera”, disse a representante da Aospe. Na lista, há pessoas aguardando uma cirurgia há quase 10 anos.

O MPPE vem acompanhando os problemas relacionados à falta das bolsas coletoras e já realizou audiências sobre a questão. Não havia atuado ainda a respeito da morosidade das cirurgias de reversão. A Defensoria Pública da União (DPU) no Recife ajuizou, em março, uma ação civil pública para que a União e o Estado de Pernambuco regularizassem o atendimento e o fornecimento das bolsas aos pacientes. Na época, foi solicitado ainda o bloqueio de R$ 548.961,00 das verbas do SUS no Estado para garantir a aquisição dos itens.

O defensor Geraldo Vilar informou que a Justiça negou a liminar por entender que o Estado estaria em vias de concluir a compra. A DPU recorreu. “Vamos continuar lutando para que o tribunal julgue o mérito do agravo de instrumento e cobrar novamente do juiz. Já se passou mais de um mês que ajuizamos a ação. Foi negada a liminar, sob a expectativa de que o Estado concluiria a licitação a tempo de entregar a todos, mas objetivamente não foi o que aconteceu”, afirmou.

A Secretaria Estadual de Saúde (SES) informou que, desde a semana passada, cerca de 20 insumos (bolsas e outros itens relacionados à ostomia) estão sendo entregues no HBL. Outros produtos devem ser disponibilizados pelos fornecedores nos próximos dias. A SES ressaltou que tem seguido todos os trâmites exigidos pela legislação para aquisição dos insumos e que tem mantido o diálogo com a Associação dos Ostomizados e os órgãos de controle. Ao todo, 44 tipos de insumos de ostomia são disponibilizados no Hospital Barão de Lucena. O processo de licitação foi homologado para 24 tipos. Os outros 20 tiveram o processo de compra revogado por apresentarem valores unitários acima do estipulado. Por isso, um novo procedimento já está em curso.

Pacientes ostomizados improvisam bolsa coletora

Sobre a situação das cirurgias de reversão, a secretaria não informou quantas pessoas aguardam o procedimento, mas informou que tem dialogado com todos os serviços no intuito de agilizar as operações. Afirmou ainda que já está em contato com suas unidades próprias para sistematizar este tipo de atendimento e viabilizar as cirurgias caso a caso. O Hospital das Clínicas negou gargalos para a realização da reversão de ostomizados.

Fonte: Folha de Pernambuco

Compartilhe:

Deixe um comentário

Fique por dentro

Notícias relacionadas