Setembro Amarelo: adoecimento da categoria médica precisa estar em pauta

Cargas horárias exaustivas, ambientes de trabalho inóspitos, e por muitas vezes inseguros, além da pressão de ser responsável por dezenas de vidas que passam por seus cuidados diariamente. É essa rotina desgastante a qual muitos médicos estão submetidos hoje no Brasil, em especial do serviço público do SUS. Tal esgotamento vem trazendo prejuízos relevantes à saúde daqueles que, justamente, são responsáveis por cuidar de vidas. Não é mais novidade que o número de casos de depressão e suicídio vem crescendo no universo de profissionais da medicina e é por isso que o Sindicato dos Médicos de Pernambuco levanta a discussão sobre a realidade médica neste Setembro Amarelo. O tema também será destaque na próxima edição da Revista Simepe.

Para trazer mais informações sobre o assunto, a assessoria de comunicação da entidade conversou com o psiquiatra Leonardo Machado, diretor da Sociedade Pernambucana de Psiquiatria (SPP), mestre e doutor em neuropsiquiatria e ciências do comportamento, e professor de psiquiatria e psicologia médica da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Ele destaca que algumas enfermidades estão crescendo em meios aos médicos, como por exemplo, a Síndrome de Burnout, ou do esgotamento profissional, consiste no estado de esgotamento físico e mental, despersonalização (uma espécie de distanciamento emocional ou alheamento) e exaustão emocional que surge devido ao acúmulo de estresse no trabalho.

Além disso, Leonardo destaca algo comum, infelizmente, na rotina dos médicos brasileiros, que é o estresse pós-traumático dentro do ambiente de trabalho ocasionado por incidentes como assaltos, agressões físicas e verbais. Para se ter uma ideia desse problema, somente em 2017, foi contabilizado pelo Simepe o número de 10 ocorrências sobre esses ´problemas nas unidades de trabalho do Recife. Em muitos casos, esse estresse pode até levar à incapacitar profissionais por conta dos transtornos mentais adquiridos.

Outro ponto que precisa ser bastante discutido, e de forma permanente, é a respeito do já se chama do mal do século: a depressão. Em 2017 a Organização Mundial da Saúde (OMS) tomou como tema de campanha para a celebração do dia mundial da saúde, uma doença que, de acordo com dados da própria Organização, afeta 322 milhões de pessoas no mundo. Para se ter uma ideia da gravidade do problema, um estudo conduzido pela American Foundation for Suicide Prevention ®, em 2008, descobriu que o índice de suicídios entre médicos é 70% maior que na população em geral. Entre médicas, 400% maior. “Médicos tendem a aderir bastante à própria profissão. Por um lado isso é positivo. Por outro, a profissão é apenas uma faceta desse indivíduo que “está” médico. Quando todas as energias são voltadas para um único foco, corre-se o risco de perder a sensação de pertencimento e de sentido de vida quando esse foco não vai bem (nas crises naturais que toda carreira pessoal e coletiva enfrenta diante da vida) ou não pode ser exercido (por exemplo, em situações de doença e/ou de aposentadoria). A perda de sensação de pertencimento e de sentido de vida estão associados ao comportamento suicida. Além disso, ter facilmente acesso aos meios (quer seja pela apropriação dos recursos intelectuais sobre o corpo humano, quer seja por ter acesso ao “instrumental”) também é uma porta de risco. Não ficam enumeradas todas as relações deste complexo campo, mas levantados alguns pontos que julgamos importante”, explica Leonardo Machado.

Não obstante a isso, é preciso destacar também que há um conceito ultrapassado, mas que ainda se aplica por muitos, da “imunidade médica” – que faz com que os profissionais achem que precisam estar imunes a qualquer tipo de enfermidade, precisando estar sempre bem para cuidar dos seus pacientes, mas estando mal em relação ao próprio bem-estar.

“A prática médica está associada a vários desafios: pressão; o contato com a dor; o contato com a sensação de impotência; o lidar diariamente com a morte e o morrer; com a sexualidade de uma maneira não erotizada. Esses parecem ser alguns dos fatores que colocam essa classe profissional com alguns riscos adicionais de quadros depressivos. Lidar com a frustração quando ele ambicionava conviver com o poder de curar. Por fim, há que se anotar os altos níveis de auto-cobrança muitas vezes encontrados nesses profissionais. Se por um lado isso o leva a um esmero profissional, por outro o pode levar a constantes sentimentos de culpa, se não for dosada”, opina o diretor da SPP.

>> Tratamento
“A procura por ajuda psiquiátrica têm aumentado na sociedade em geral. Parece-nos que os estigmas em relação a essas condições clínicas têm diminuindo paulatinamente”, explica Leonardo Machado. Entre os tratamentos que podem ajudar a superar esses transtornos, evitando problemas maiores, está a psicoterapia, realizada por psicólogos ou por psiquiatras. Em muitos casos, também é necessário o uso de medicamentos.

Além disso, entre outros tratamentos, na atualidade, há também a opção por estimulação magnética transcraniana que vem demonstrando crescente evidência de eficácia no tratamento da depressão.

O Simepe reforça seu compromisso com a categoria médica, a qual representa com muito orgulho, e destaca a importância de campanhas como o Setembro Amarelo. A saúde de todos vocês é um bem inestimável para nossa entidade.

>> Setembro Amarelo
O Setembro Amarelo é o mês voltado para campanhas que visam alertar, prevenir e combater o suicídio por meio da discussão em sociedade. O Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio é comemorado nesta segunda-feira (10) e estão sendo programados debates, palestras, capacitação de profissionais de saúde e outros eventos em toda a capital pernambucana. Esse grave problema de saúde pública é marcado por um suicídio no mundo a cada 40 segundos, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS).

*A reportagem completa será um dos destaques da própria edição da Revista Simepe, que será entregue a todos os médicos associados ao Sindicato.

Compartilhe:

Deixe um comentário

Fique por dentro

Notícias relacionadas