Plantonistas do Hospital Helena Moura, localizado no bairro da Tamarineira, Zona Norte do Recife, viveram momentos delicados na noite desta terça-feira (04/04). Isso porque a superlotação e o déficit de profissionais na unidade provocaram maior espera no atendimento dos pacientes, o que gerou a revolta da população que aguardava por uma consulta. Com isso, os ânimos se exaltaram e os médicos foram agredidos verbalmente e chegaram a ter que se acuar com medo de serem agredidos fisicamente.
Por conta da grande tensão, os plantonistas, desesperados, entraram em contato com o presidente do Sindicato dos Médicos, Tadeu Calheiros, que se dirigiu imediatamente ao local acompanhado do diretor executivo José Tenório para acalmar a situação. Os dirigentes, assim como os profissionais da unidade de saúde, entraram em contato com a Polícia Militar, que enviou uma equipe do Grupo de Ações Táticas Itinerantes (GATI) ao local.
Ao chegar no Hospital Helena Moura, a equipe do Simepe conversou com os pacientes para acalmar a tensão. Na sequência, os diretores da entidade médica se juntaram ao corpo clínico para atender a demanda retida na unidade, que contava com uma enorme lista de espera – contabilizando 84 pacientes à espera de cuidados.

Com a situação um pouco mais aliviada, a médica Paloma Ferreira descreveu como se deu o tumulto na unidade. Ela explicou que chegou ao plantão às 19h e já encontrou a lotação de pacientes, em decorrência também de outros serviços de pediatria, como o do Hospital Maria Lucinda, estarem sem atendimento. Ferreira ainda explicou que os profissionais do turno da noite foram recebidos com xingamentos e vaias, postura agressiva que já estava sendo adotada com a equipe do turno da manhã.
“Quando cheguei, ouvi dizer que se os atendimentos demorassem mais eles iam partir para a agressividade. Eu fiquei assustada. A nossa unidade não fecha, nunca restringe o plantão, mesmo em momentos mais caóticos ou quando nossa escala está desfalcada. Era para ter quatro pediatras aqui, no mínimo, pela demanda que a gente tem. Mas a Prefeitura (do Recife) já disse que não tinha condições de chamar novos profissionais. Tem até fila do último concurso pra ser chamada e não chamam. E ai a gente trabalha nessa situação, sendo agredido, sem segurança, sendo ameaçado, Já houve até furto aqui na unidade, mas hoje chegou à situação de completo caos”, lamenta.
A equipe do hospital ainda detalhou que a situação durante o dia, segundo as informações repassadas, era a de sempre: lotado de pacientes, mas com três pediatras em atendimento sem restrições. Mas houve uma demanda crescente, aliado a uma ocorrência mais grave que precisou de transferência em ambulância – o que desfalcou o contingente para apenas dois médicos -, e a equipe não conseguiu mais dar conta, mesmo sem ter tirado o horário de descanso e sem terem almoçado direito.
O presidente do Sindicato dos Médicos explicou que, ao receber a denúncia do corpo clínico, entrou imediatamente em contato com a Polícia Militar e com o Secretário municipal de saúde. “O Simepe entrou em contato com secretário, que de pronto atendeu ao pedido e acionou a direção da unidade, a guarda municipal e PM. Mas a situação é inadmissível. É preciso readequar o número de profissionais de saúde nas unidades e reforçar a segurança”. Essa insegurança, reivindicação constante do Sindicato junto à gestão municipal, também foi lamentada pelos profissionais do Helena Moura. “A gente trabalha sem segurança. Em alguns plantões, existe a guarda municipal – que já verbalizou várias vezes que a função deles é zelar pelo patrimônio físico e não pelos funcionários daqui”, afirma Paloma Ferreira.
Tadeu Calheiros ainda explica o problema é um cenário previsível e que é preciso uma política mais eficiente de Recursos Humanos do município e mais segurança. “Já estamos alertando há bastante tempo essa situação e devemos trabalhar para prevenir situações como esta. Recebemos a denúncia de uma médica amedrontada, trancada em um quarto, com medo de uma invasão por parte dos usuários. Já na ligação, ela relatava que os usuários são vítimas também, assim como os profissionais, deste cenário, porque há uma superdemanda para o subdimensionamento de equipe”, destaca Calheiros, reforçando a informação apresentada pelo corpo clínico, de que havia três médicos no período diurno atendendo, número que caiu para dois por conta da transferência de um paciente grave. Ele ainda destacou que, pelo que é observado no Helena Moura, por conta da procura, esse efetivo deveria ser de, pelo menos, cinco profissionais e que o Sindicato manteremos ações pontuais sempre que possível e necessário, sem perder o foco nas necessidades de mudanças no cenário macro.
Sobre o tumulto, o presidente do Simepe ainda detalhou que a população também é vítima dessa situação. “As pessoas lá estão com um ente querido sofrendo com alguma enfermidade e, com uma demanda grande e sem profissionais, surge o medo da falta do atendimento. Também não há informação, não há quem faça o intermédio entre o consultório e a sala de espera. O desespero toma conta e faz com que eles se rebelem contra quem está na sua frente, que são os médicos, numa transferência de responsabilidade ”, avalia.
Por fim, com a situação um pouco mais calma, o presidente ainda agradeceu o apoio de todos os profissionais de saúde da unidade, bem como o apoio do GATI e da Polícia Militar, no nome do major Arthur Pimentel. Tadeu Calheiros parabenizou também os guardas municipais que ajudaram a organizar o processo de atendimento.
Para combater essa situação e prevenir que novos incidentes aconteçam, o Sindicato dos Médicos de Pernambuco vai notificar, via ofício, a Prefeitura do Recife cobrando medidas urgentes, como o melhor dimensiosamento da equipe. Além disso, o Sindicato vai reforçar, mais uma vez, a solicitação urgente para a volta da vigilância nas unidades de saúde do Recife.



