Só minoria faz teste de detecção de clamídia

SÃO PAULO – Apenas um terço das mulheres faz como rotina o exame de detecção da clamídia, doença sexualmente transmissível que causa obstrução nas trompas e infertilidade. O alerta é do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) americano que, após estudo, reforçou no mês passado a recomendação do teste para todas as jovens sexualmente ativas.

Na Europa e nos EUA, a incidência da doença, que afeta homens e mulheres, dobrou nos últimos dez anos. O principal motivo são as relações sexuais sem camisinha. O CDC estima que 2,8 milhões estejam infectados nos EUA e não saibam. “No Brasil, a situação não é diferente. No nosso laboratório, aparecem muitos casos. É a doença venérea mais frequente”, ressalta o ginecologista Márcio Coslovsky.

O Brasil não tem uma série histórica sobre a incidência da doença porque só o HIV e a sífilis congênita são DSTs de notificação compulsória. Mas um levantamento do Ministério da Saúde mostrou que quase 10% das jovens entre 15 e 24 anos atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) estavam infectadas.

Segundo Coslovsky, assintomática em 70% dos casos, a clamídia costuma passar despercebida. “Não dá cheiro, não dá coceira, não dá corrimento”, explica. Normalmente, a pessoa só descobre se o ginecologista pede exames para a detecção. “Mas, para isso, ele precisa lembrar da clamídia, o que normalmente não acontece. Hoje, o médico lembra mais de investigar o HPV”, afirma o professor da USP e diretor científico da Federação brasileira das associações de ginecologia, Nilson Roberto de Melo.

Infertilidade
Nas mulheres, a bactéria pode atravessar o colo uterino, atingir as trompas e causar a doença inflamatória pélvica (DIP). O risco é de as trompas ficarem obstruídas, o que impede a gravidez ou leva a uma gravidez tubária.

De acordo com o presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana, o médico Artur Dzik, nesses casos, as mulheres que desejam engravidar são orientadas a fazer uma fertilização in vitro. “Quando elas chegam à clínica de reprodução, já é tarde, o estrago está feito. Não tem como fazer cirurgia para desobstruir as trompas”, diz.

O assunto tem sido discutido nas últimas conferências internacionais sobre reprodução humana e colocado como um problema mundial. Homens infectados por clamídia também estão sujeitos a inflamações nos epidídimos (epididimite) e nos testículos (orquite), que podem causar infertilidade. “Normalmente, é uma infecção mais leve. O problema é que ele pode infectar a parceira”, explica Artur Dzik.

A clamídia também pode ser transmitida da mãe para o bebê na hora do parto. Não há vacinas contra a doença. A única forma de prevenção é o sexo seguro com o uso de preservativos. O tratamento, por sua vez, é feito com antibióticos específicos. Ambos os parceiros precisam recebê-lo para garantir a cura.

Fonte: Folha de Pernambuco

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