A manhã de ontem na maternidade do Hospital Barão de Lucena (HBL), na Iputinga, Zona Oeste do Recife, foi a seco. Médicos, enfermeiros e pacientes denunciaram que faltou água por algumas horas nos setores de triagem e expectação, o que atrapalhou os serviços. A carência foi apenas mais um problema no meio de uma série de deficiências: número insuficiente de profissionais de saúde, superlotação, pacientes nos corredores, pisos sujos, caos. A denúncia partiu da Associação de Defesa dos Usuários de Seguros, Planos e Sistemas de Saúde (Aduseps).
Assustada com a superlotação, a dona de casa Cícera Lourenço, 41 anos, cuja bolsa estourou às 6h, esperava por atendimento. Já teve nove filhos, mas jamais tinha visto situação assim. “Nunca vim numa maternidade grande assim. Me espantei com tanta gente. O hospital não dá conta e a espera não tem fim”, lamenta. Do lado, não se aguentando de dor, Isabela Carneiro, 21, dizia que o HBL era a segunda unidade à qual recorreu ontem. Antes, foi recusada na maternidade de Camaragibe, que, segundo ela, não contava com obstetra. “É um absurdo essa espera toda.”
A reportagem não teve acesso à triagem. É lá onde, segundo a Aduseps, estão os maiores problemas. O espaço conta com seis leitos, mas abriga 22 grávidas em pré-parto. Onze delas lotam os corredores. Fotografias tiradas de celular revelam o drama. A ala do puerpério também estava cheia. Sem leito, algumas mulheres acabam ficando em cadeiras de roda após o parto.
O obstetra Rodrigo Araújo Holanda reclamou da falta de água. “Estamos sem água e sem previsão de chegada. Assim, não podemos submeter a paciente a nenhum tipo de intervenção.” Holanda corroborou as denúncias da Aduseps. “Faltam médicos, enfermeiros e técnicos. Colegas estão pedindo exoneração. É paciente em corredor de bloco, salas superlotadas. Está impossível.” Outra médica falou que havia apenas três neonatologistas, a metade do ideal. A Unidade de Cuidados Intensivos Neonatal tem 15 leitos, mas contava com 25 pacientes. “A gente chega a pedir para os familiares dos pacientes filmarem a situação e denunciarem ao Ministério Público.”
PROVIDÊNCIAS
A diretora do HBL, Carla de Albuquerque Araújo, reconheceu a superlotação e afirmou que medidas estão sendo tomadas para equacionar o problema. “Somos o único hospital público que tem acolhimento e classificação de risco por protocolo. A prioridade se dá não por ordem de chegada, mas por quadro clínico.” Carla Araújo citou a construção da nova emergência obstétrica e nova emergência pediátrica, com 35 leitos e nove consultórios. Admitiu, ainda, carência de neonatologistas, mas garantiu que o déficit será amenizado com a entrada de sete especialistas por concurso.
Em relação à falta d’água, alegou um serviço de manutenção, mas disse que os procedimentos foram realizados com água mineral e que a higienização se deu por meio de álcool em gel. A água voltou às 13h.
Fonte: Jornal do Commercio



