SUS assume tratamentos mais caros

Transplantes, remédios para doenças raras, hemodiálise: custos que oneram o sistema de forma unilateral

ROSA FALCÃO

Quando se fala de tratamentos de saúde de alta complexidade (transplantes, medicamentos para doenças raras, hemodiálise) no Brasil, o SUS é o protagonista. Alguns tipos de seguros de saúde cobrem transplantes em menor proporção. Hoje, 80% destes procedimentos feitos no país são financiados pelo sistema público. Em 2012, o Ministério da Saúde destinou R$ 217 milhões do orçamento da pasta para os transplantes (rim, coração, fígado, medula óssea). Para os tratamentos de câncer (quimioterapia e radioterapia), foram desembolsados R$ 2,1 bilhões no período.

O gargalo do sistema é o acesso aos serviços de excelência e de alta complexidade para atender à grande demanda. O mecânico Antônio dos Santos Costa, 34, viajou 6.398 quilômetros – distância entre Boa Vista (Roraima) até o Recife – para operar um tumor no pescoço. Acompanhado do irmão, Erisvaldo dos Santos Costa, 36, contador, ele conseguiu um leito no Hospital do Câncer de Pernambuco. “O Ministério Público do Acre foi acionado para garantir o leito. Depois de muita briga conseguimos marcar a cirurgia”, conta Erisvaldo.

Não foi tão fácil. Da primeira vez que a cirurgia foi marcada (dia 25 de maio) a documentação estava incompleta. Antônio e Erisvaldo voltaram para Roraima para esperar a nova data, 9 de julho. Encontramos os irmãos no dia da operação. O sentimento de Erivaldo era de alívio e preocupação. “Espero que hoje ele consiga se operar. É muito complicado para a família, porque é distante. Fiquei contente por ele ter conseguido o leito, mas tem esse outro lado financeiro, que é muito difícil.”

O Hospital Português (HP) é referência em transplantes de rim, coração e medula óssea no Nordeste. A diretora médica do hospital, Maria do Carmo Lencastre, diz que o carro-chefe é o atendimento ao SUS, mas alguns convênios privados têm cobertura proporcional. Os pacientes ficam numa fila na Central de Transplantes. Em 2012 foram feitos 53 transplantes renais, 13 cardíacos e 130 de medula no HP. Os pacientes do SUS e de planos de saúde usam o mesmo ambulatório. O Brasil faz 290 transplantes de coração por ano e os Estados Unidos, 2,5 mil anuais.

A Unidade de Otorrinos do Hospital Agamenon Magalhães é a única no SUS no Norte e Nordeste que faz o implante coclear (aparelho de audição). Somente a prótese custa R$ 39 mil. O auxiliar de serviços gerais Fábio Luiz de Souza, 37, perdeu a audição em janeiro. A mãe, a servidora pública Maria de Fátima de Souza, 59, levou o filho para a médica do convênio. Depois de fazer os exames, a especialista indicou a cirurgia. Como o plano de saúde é de co-participação, a mãe teria que arcar com uma despesa de R$ 100 mil.“A gente não pode pagar. Ele vai fazer o implante pelo SUS”, conta Maria de Fátima.

O diretor do Agamenon Magalhães, Antônio Trindade, diz que o hospital não faz mais tratamentos de alta complexidade porque não pode atender à demanda. Por mês, a unidade recebe entre 5 mil e 6 mil pacientes nas quatro emergências e faz de 6 mil a 8 mil consultas e exames. A emergência mais lotada é de otorrinos (100 pacientes/dia). A equipe tem 470 médicos, 180 enfermeiros e 1,1 mil técnicos de enfermagem. O custo mensal é de R$ 2,5 milhões. “As falhas de pessoal chamam mais a atenção na área médica, pois somos superlotados”, diz Trindade.

Fonte: Diario de Pernambuco

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