Tecnologia a serviço do paciente

O consultor Gustavo Gonçalves, de 51 anos, nunca imaginou que poderia, um dia, ser operado por um robô. Na época em que ele pesquisou sobre o assunto, devido à possibilidade de se submeter ao procedimento para tratar um câncer de próstata, poucas pessoas haviam passado por cirurgias robóticas no país. A ideia era assustadora, mas ele topou. A operação foi um sucesso, ela ocorreu mês passado no Hospital Santa Joana Recife, o primeiro hospital em Pernambuco a ter um programa de cirurgia robótica.

Durante uma viagem ao exterior com a esposa, Gustavo conta que começou a sentir dores fortes na barriga. Foram 15 dias de incômodo. “Achei que era um cálculo renal”, diz. De volta ao Recife, ele fez exames e constatou uma hérnia. Com a cirurgia de videolaparoscopia marcada, o cirurgião desconfiou de alterações na próstata e sugeriu que ele visitasse um urologista antes de fazer qualquer procedimento. Como Gustavo perdeu o pai e um amigo próximo por causa do câncer de próstata e desde os 40 anos faz acompanhamento médico, levou a sério o pedido. Procurou o doutor Guilherme Lima.

“Quando Gustavo me procurou, ele estava com indicação de corrigir hérnia por videolaparoscopia. Nós constatamos que ele, além da hérnia inguinal, apresentava também um câncer localizado na próstata. Foi quando discutimos as possibilidades terapêuticas”, explicou o médico. O Dr. Guilherme já havia operado Gustavo por videolaparoscopia em outro momento, para tratar de uma patologia renal. “Passei pra ele que nós teríamos outra opção, menos invasiva, método recente ainda no Recife”, diz o médico. Ele sugeriu a cirurgia robótica por ser a melhor alternativa. Depois de muito pensar, pesquisar e consultar colegas da área de saúde, Gustavo aceitou.

O paciente diz que, para a família, foi um choque muito grande saber do câncer. “Todo mundo ficou assustado. O maior medo é o risco da morte, mas eu sempre a considerei uma continuação da vida. Minha família ficou mais apavorada que eu. Minha esposa não ficou confortável porque era uma metodologia muito nova. Eu também tinha algum receio”, confessa.

A cirurgia robótica é uma cirurgia em vídeo, assim como a laparoscopia. Logo, traz os mesmos benefícios. Só que a robótica vai além. Enquanto a laparoscopia é como se estivéssemos assistindo a uma televisão comum, vídeo doméstico de duas dimensões, o robô fornece uma imagem tridimensional. Muito mais anatômica e real do que a imagem que a laparoscopia oferece.

Por ter movimentos mais precisos e com melhor alcance, o trauma cirúrgico na operação robótica acaba sendo bem menor ao paciente, o que significa que ele pode se recuperar muito mais facilmente.

A volta rápida às atividades foi uma das coisas de que Gustavo mais gostou. “Não tenho absolutamente nada do que reclamar em termos de procedimento, cirurgia, recuperação. No dia seguinte eu já estava bem melhor. Eu moro em um prédio em que preciso subir e descer escadas, e foi tudo muito rápido. Achei excelente ter toda essa tecnologia na mão”, relata. A hérnia foi corrigida na mesma cirurgia.

O médico ainda pontua que, com o robô, a preservação dos nervos da região é feita com mais cautela e promete resultados ainda melhores – aspecto importante, especialmente em cirurgias urológicas. “Quando se fala em prostatectomia radical, existem duas grandes preocupações. A disfunção erétil, impotência sexual causada eventualmente por pequenos danos que a cirurgia traz aos nervos, e a continência, que é o ato de controlar a micção”, explica. Gustavo não teve nenhuma sequela e recuperou-se rapidamente. “O benefício da cirurgia robótica é evidente. O paciente retorna as suas atividades mais precocemente, tem período de convalescência menor. Ele está com pouco mais de 30 dias de pós-operatório, já apresentando sinais evidentes de boa recuperação funcional”, continua o médico.

A cirurgia robótica em si não é tão recente, mas aqui no Brasil, sim. Começou em SP e, aqui no Nordeste, o Santa Joana Recife foi o pioneiro. “Sem dúvida que ter a opção de fazer a cirurgia robótica no Recife foi um grande avanço. Para quem tem experiência com a cirurgia laparoscópica, como nós temos, passar para a cirurgia robótica foi apenas um passo. Mas todo passo deve ser dado com muito cuidado”, conclui o doutor Guilherme. Hoje, mais de 50 pessoas já foram submetidas a cirurgias robóticas na unidade de saúde, que conta com profissionais com treinamento internacional.

Atualmente, Gustavo já está de volta a todas as atividades. Ele diz que sempre viveu a vida intensamente, mas considera a cura uma segunda chance para viver ainda mais. “Minha perspectiva de vida não mudou, eu continuo aproveitando meus dias como se fossem os últimos”, garante.

O robô, de quem ele teve tanto receio no início, hoje é alvo de agradecimentos. Como se fosse uma pessoa, virou amigo. “Esse robô hoje está mudando a vida das pessoas que precisam no mundo todo. Está se mostrando extremamente eficiente. Posso agradecer minha saúde à equipe médica, que foi determinante inclusive na recuperação, e ao robô, que fez um excelente trabalho”, brinca.

Fonte: Jornal do Commercio

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