Pouco mais de um ano após a morte da filha, a dona de casa Marinalva do Nascimento, 53, não se arrepende de ter atendido ao pedido dela. A operadora de caixa Jaqueline, que morreu aos 29 anos, de aneurisma cerebral, queria doar seus órgãos. A mãe ficou sabendo deste desejo através de uma amiga de Jaqueline. O gesto nobre ajudou cinco pessoas. “Ela doou córneas, rins, coração e fígado”, explica Marinalva. E a família Nascimento não está sozinha nesta luta para salvar vidas, comemorada hoje com o Dia Mundial de Doação de Orgãos.
Estudo divulgado pela Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO) mostrou que 48% das famílias pernambucanas pesquisadas concordam em fazer a doação. O estado obteve a segunda melhor colocação do Nordeste e foi o 11º mais solidário no ranking nacional. Atualmente, 2.960 pacientes aguardam um transplante no estado. A recusa familiar é o principal obstáculo.
Em Pernambuco foram entrevistadas 134 famílias de pacientes com morte encefálica confirmada – parada irreversível do funcionamento do cérebro. O estudo revelou que 70 delas resistiram ao gesto e 64 responderam de forma positiva. No Nordeste, o estado só ficou atrás do Ceará, que somou 67% de aprovação das famílias. O pior desempenho da região ficou com Sergipe, com 81% de recusa. Minas Gerais foi o mais bem colocado do país, com adesão de 74%.
O presidente da ABTO, o médico José Medina Pestana, avalia como bom o desempenho do estado. “Quase metade dos entrevistados aceitou a doação. O desafio de Pernambuco é o mesmo do país: aumentar as notificações e elevar o número de transplantes”, afirmou. Questões culturais, insatisfação com o serviço do hospital na fase de tratamento e desconhecimento do desejo do parente impedem o avanço das aprovações. A não-conclusão dos protocolos de morte encefálica e a contraindicação médica são outros dois motivos. Em caso de morte por parada cardiorrespiratória, apenas a pele, os ossos e as córneas podem ser aproveitados. “A necessidade do transplante pode bater à nossa porta. A doação é um ato de responsabilidade social”, comentou a diretora do Central de Transplantes de Pernambuco, Noemy Gomes.
A alagoana Elizabeth Carvalho, 30, passou por um transplante de fígado no Recife. “Queria agradecer a pessoa que fez esse gesto. A sensação de estar viva não tem preço”. A chance de alguém ser doador é quatro vezes menor do que o risco de precisar de um transplante. Um doador pode salvar até 10 vidas.
Fonte: Diario de Pernambuco



