Um mês com a perna quebrada

Há exatamente um mês, o consumidor Fernando Fradique está com a tíbia quebrada, sem poder andar e sem ter certeza de quando poderá fazer uma cirurgia prescrita por dois médicos. Desde o último dia 8 de dezembro, quando sofreu um acidente que provocou a fratura do osso em três lugares, o usuário do plano América Saúde luta pelo procedimento cirúrgico. Ele tem o plano empresarial desde 2009 e paga mensalmente R$ 237.

Depois de passar por três hospitais, o resultado foi frustrante. Dois hospitais não puderam realizar o procedimento porque o plano foi descredenciado por conta dos débitos. A outra unidade, da rede própria, não oferecia condições apropriadas para a cirurgia e dois médicos se negaram a realizar a operação.

Fernando continua acamado e reclama que sua perna está ficando roxa e começa a atrofiar, pela falta de movimentos. “Fui encaminhado para o Memorial do Recife [que pertence ao mesmo grupo do plano. Fiquei internado do dia 8 até o dia 15, quando voltei para casa com a promessa de que seria operado no dia 19 de dezembro.”

Na véspera da cirurgia, Fernando conta que foi informado pelo médico que o plano não pagaria pelo procedimento. “Chamaram um segundo médico, que se negou a fazer a operação porque o hospital não teria suporte necessário, inclusive faltavam equipamentos. Fui encaminhado para outra unidade de saúde, mas me informaram que o América havia sido descredenciado. Desde então, o plano prorroga a autorização de internamento, a compra de material”, reclama.

O América Saúde faz parte do mesmo grupo do Real Saúde. As duas operadoras são acusadas de débitos em clínicas e hospitais no Estado, de acordo com o Sindicato dos Hospitais de Pernambuco (Sindhospe) e a Associação de Defesa dos Usuários de Seguros, Planos e Sistemas de Saúde (Aduseps). A coordenadora da Aduseps, Renê Patriota, afirma que a entidade entrará com uma Ação civil pública (ACP) contra as duas operadoras e a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). “Entendemos que essas empresas quebram e deixam o consumidor desassistido, mas a ANS demora a tomar uma atitude em relação ao atendimento dos usuários. Os hospitais não têm como atender aos clientes desses planos, mas o poder público deveria exigir a garantia desses serviços pelas operadoras.”

“As duas empresas têm um débito muito alto, hoje praticamente mais nenhum estabelecimento atende aos dois planos aqui no Estado. O América é um plano mais recente, mas há um passivo de inadimplência do grupo muito alto. Apenas o Real Saúde tem uma dívida em torno de R$ 13 milhões em clínicas e hospitais pernambucanos”, sinaliza o diretor do Sindhospe, Mardônio Quintas.

O Real Saúde está sob direção técnica da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) desde dezembro, além de ter suspensa a comercialização de novos planos. Esse tipo de intervenção ocorre quando a operadora não consegue atender a funções básicas – como a liberação de exames para os usuários – e a agência passa a atuar para corrigir as anormalidades administrativas e assistenciais. Mesmo assim, o Real Saúde tem que garantir a cobertura aos seus clientes. Se os problemas não forem corrigidos, a ANS poderá determinar o cancelamento ou a liquidação da operadora.

Embora seja do mesmo grupo do Real Saúde, o América não está sob direção técnica da ANS. No entanto, não está cumprindo com a cobertura de seus clientes – como Fernando Fradique. Procurados desde a última quinta-feira, os representantes das operadoras não atenderam a reportagem do JC.

Fonte: Jornal do Commercio

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