Um estudo realizado na Eslovênia reforça a relação da ocorrência de microcefalia ao zika vírus. O trabalho publicado na revista The New England Journal of Medicine está sendo apontado como um dos mais completos já realizados para demonstrar essa associação. Entre outras coisas, conta com imagens do feto, análises patológicas do cérebro danificado e o sequenciamento completo do vírus encontrado em suas estruturas cerebrais. A investigação foi realizada em um feto abortado no país, em 2015, após o diagnóstico da malformação. A autopsia atestou que havia replicação viral no cérebro, que sofreu danos – necrose dos neurônios.
A carga do vírus era, inclusive, maior do que a encontrada anteriormente no soro de pacientes adultos. E se assemelha a vista no sêmen. Além desse achado, o estudo praticamente confirma que o vírus circulante no Brasil é uma mutação da cepa asiática. “Há indícios de replicação viral no cérebro. As conclusões sobre microscopia eletrônica sugerem uma possível persistência de zika no cérebro, possivelmente por causa do meio imunologicamente seguro para o vírus”, aponta a publicação.
Os cientistas reforçam a tese dos pesquisadores brasileiros de que o zika tem uma predileção por atacar os neurônios, mecanismo conhecido como neurotropismo. O caso estudado pelos eslovenos foi o de um feto com 26 cm de Perímetro Céfalico (PC) e com severos danos ao sistema nervoso central. Além do PC reduzido, o feto tinha calcificações (necrose de neurônios) e acúmulo de líquidos no cérebro.
Na autópsia, os cientistas conseguiram encontrar e sequenciar o RNA do vírus. A amostra do tecido sugere que houve uma modificação na linhagem original asiática, já que foram encontradas novas composições no sequenciamento genético do feto.
O CASO – O relatório investigou o caso de uma mulher europeia de 25 anos, que buscou o Departamento de Perinatologia no Centro Médico da Universidade de Ljubljana, Eslovênia, por causa de anomalias fetais atestadas em ultrassom. Ela morou em Natal, no Rio Grande do Norte, cerca de dois anos, e engravidou no estado em fevereiro de 2015. Na 13ª semana de gestação apresentou sintomas semelhantes com a zika. Até a 20ª semana de gravidez exames não apontaram anomalia no feto. No retorno à Europa, já com 29 semanas, foi detectada a malformação. O aborto, que é legalizado em seu país, foi feito na 32ª semana.
DIVERGÊNCIAS – Mesmo considerado completo, o estudo, para alguns pesquisadores, não é definitivo em relação à associação do zika com a microcefalia. “É mais um exemplo de coexistência, apenas mais um caso de detecção do vírus em um feto com microcefalia. Coisas podem coexistir. Não é válido dizer que isso é evidência”, disse o cardiologista Luis Correia, especialista em medicina baseada em evidência.
Para o infectologista, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e membro da Sociedade Brasileira de Dengue e Arboviroses, Kleber Luz, os achados no feto reforçam o que as pesquisas brasileiras já atestam: que o zika é o causador da microcefalia. “Sem imunidade, o cérebro dos fetos funciona como uma espécie de ‘incubadora’. É um sítio privilegiado. O vírus chega lá e não encontra dificuldade de sobreviver, de se replicar”, comentou. Isso acontece porque o feto, ainda em formação, não consegue combater a infecção. Sobre o fato da autópsia, realizada três dias após o abortamento, ter apontado o vírus ativo, Luz explicou que isso é habitual em infecções congênitas, como a rubéola, por exemplo.
MUDANÇAS – Depois de mudar o padrão para inclusão de casos suspeito de microcefalia de 33 cm de perímetro cefálico (PC) para 32 cm, agora o Ministério da Saúde (MS) vai estipular novos critérios para a medicação da cabeça de recém-nascidos. A informação foi do diretor do Departamento de Vigilância de Doenças Transmissíveis do MS, Cláudio Maierovitch. Agora haverá tamanhos específicos por sexo, uma vez que as meninas podem nascer com um PC menor, mas não necessariamente ter a malformação. Isso justificaria, por exemplo, porquê a maior notificação do sexo feminino. No Estado, as meninas representam 63,4% dos casos suspeitos.
Fonte: Folha de Pernambuco



