Os números acendem o sinal vermelho que há mais tempo deveria estar aceso: Pernambuco tem hoje mais de 17 mil pessoas, em 92% dos municípios – praticamente todo o Estado – com sintomas do vírus da chicungunha, alarmante pela natureza epidêmica desse mal transmitido por um mosquito que não conseguimos ainda vencer, provocador de febre e dores nas articulações, sem medicação. O alarme é amplificado sobretudo porque se trata de mais uma assombração que resulta das nossas condições precárias de saneamento e de saúde pública.
Quem resume essa condição dramática é o médico Carlos Brito, membro do Comitê Técnico de Arboviroses do Ministério da Saúde: “Enquanto não houver qualidade de vida, o cenário das arboviroses – tipos de vírus que são transmitidos pela picada de mosquitos – não vai melhorar”. A associação é inevitável para nos advertir sobre o caráter social dessa doença, agora considerada uma enfermidade infecciosa global: enquanto se manifesta como endemia na África – onde foi descrita pela primeira vez – e se espalha como epidemia nas Américas, a Europa recebe da Organização Mundial da Saúde o atestado de erradicação da malária.
O contraponto a mais, esse agente que acrescenta inquietação onde tantas já existem de outras natureza, é que todos podemos evitá-lo e contribuir para que ele não ataque o próximo. Na falta de uma medicação farta, como existe para outros males, o enfrentamento do vírus da chicungunha se dá por ações preventivas, através de controles ambientais, repelentes, telas em portas e janelas, mosquiteiros com ou sem inseticidas e, sobretudo, com a eliminação de água estagnada, que é caldo de cultura para a reprodução dos mosquitos.
Saber os antecedentes dessa doença, de que forma ela apareceu e se proliferou, é importante como atenção pedagógica a um mal que pode ser evitado ou repelido. Ele vem da década de 50, o que significa um longo percurso em que se deveria ter cuidado das ações preventivas. Mas sua origem está em um continente excluído historicamente, estigmatizado, e somente nos anos mais recentes ocupa status de epidemia assustadora, depois que em 2013 chegou às Américas através da República Dominicana e outras áreas do Caribe, destacados destinos turísticos, favoráveis à circulação e transmissão do chicungunha.
Apesar do entendimento da doença como uma enfermidade infecciosa global e uma patologia que na maioria das vezes não implica em complicações graves, sabe-se que as autoridades sanitárias de todo mundo estão em alerta, o que traz para nosso Estado os holofotes de um problema que cresce, se expande e repercute sobre outro mal que nos acomete: as dificuldades de natureza econômica. Assim como o zika e a dengue, além de um mal doloroso e até letal, é inevitável o agravamento das condições de trabalho e produção com o aumento do número de pessoas com a chicungunha, o que exige um envolvimento coletivo bem mais abrangente do que se fez até agora.
Fonte: Jornal do Commercio



