Microcefalia: relatos de erros nas medições

CARUARU – Apesar de grave, o cenário da microcefalia em Pernambuco pode ser menor do que os 1.185 casos apontados como suspeitos desde a notícia do surto da malformação. Principalmente, os registrados no Interior do Estado. Referência para mais de 50 municípios do Agreste, o Hospital Mestre Vitalino, em Caruaru, atende os bebês notificados como microcéfalos toda terça-feira. Em 22 e 29 de dezembro, foram recebidos 42 casos. Desses, 14 foram confirmados com exames de imagem e os outros 28 descartados.

Essa enxurrada de notificações está relacionada a dois fatores. A maior sensibilidade no critério de notificação, que prefere pecar pelo excesso. Mas, também, ao erro na medição no perímetro cefálico (PC) dos bebês nas maternidades. “O que temos observado são medições feitas de forma incorreta. Essas falhas nos diagnósticos precisam ser minimizadas. Recebemos bebês cuja informação é de 31 cm de perímetro, mas na reavaliação têm 34 cm”, exemplificou a coordenadora de Neurologia do Hospital Mestre Vitalino, Maria Paula Martins. Por determinação do Ministério da Saúde, os recém-nascidos com PC abaixo de 32 cm são notificados como casos suspeitos de microcefalia. Até 3 de dezembro, eram notificados casos com PC menor que 33.

O professor de Saúde Pública da UFPE e assessor técnico da Prefeitura de Caruaru, Marcos Pedrosa, alerta que pode estar havendo uma precipitação tanto nos diagnósticos dos já nascidos, quando no feto. “A ultrassom, assim como a medição do PC, é uma interpretação que depende de quem a está realizado”, explicou.

SUSTO – Liane de Oliveira, 30 anos, está entre as mães que tiveram o bebê notificado com a malformação para, em seguida, o diagnóstico ser descartado. Moradora de São Bento do Una, no Agreste, ela teve filho há um mês em sua cidade. Já estava na casa de apoio quando foi informada por uma funcionária da maternidade que seria encaminhada para consultar o recém-nascido no HMV. O alívio só veio após uma nova medição do perímetro encefálico do bebê, em Caruaru. “Meu bebê é saudável. Passei por um susto”, contou.

A dona de casa Lucivânia Maria da Silva, 20 anos, viveu essa angústia. Estava com quase nove meses quando o médico, após fazer a ultrassom, alertou que seu bebê tinha a malformação. “Nas outras ultrassons que fiz não havia nada errado. Não aceitei. Repeti o exame no Imip e deu negativo. Meu filho está com um mês de nascido e é normal”, comemorou. Oficialmente, a SES aponta que só há quatro casos de notificação de microcefalia intraútero identificados. Em um deles, o bebê nasceu morto no mês passado.

CREMEPE – O presidente do Cremepe, Silvio Rodrigues, destacou que os diagnósticos pós-parto sobre a possível ocorrência de microcefalia não devem ser classificados como erro médico. Para ele, os profissionais têm sido muito mais criteriosos para não deixar de investigar se houver uma dúvida. “Isso pode demonstrar um excesso de zelo do médico” disse.

A Secretaria Estadual de Saúde informou que a medição do PC é um parâmetro para os casos suspeitos de microcefalia, mas a confirmação ou descarte da problemática só é feita após a realização de exames de imagem. Por isso, a importância e o cuidado na realização das consultas pelos especialistas dos casos suspeitos e da realização dos exames complementares.

Agreste: alta infestação do Aedes

Vivendo uma das piores crises de abastecimento da história, onde os rodízios chegam, em algumas cidades, a 28 dias sem água, o Agreste também preocupa pela infestação do Aedes aegypti. Boa parte deles está em situação de risco de surto ou alerta para as arboviroses, que incluem dengue, zika e chikungunya. Caruaru teve 4.853 casos suspeitos de dengue/zika em 2015. Desses, 541 foram confirmados para dengue. Já a chikungunya teve quatro casos confirmados laboratorialmente. A cidade também é a terceira em números absolutos de suspeita de microcefalia, com 43 registros.

O diretor de Vigilância em Saúde, Paulo Florêncio, reconhece que a cidade vive uma luta constante contra o mosquito. Para ele, o maior desafio é manter o controle de focos sem a participação da população. “Muitas vezes fazemos o trabalho num bairro. E, quando voltamos dois meses depois, encontramos os mesmos focos e reservatórios descobertos”, lamentou. O bairro campeão de infestação em Caruaru é o Monte Bom Jesus, com índice 16,6 do Levantamento de Infestação Rápida de Aedes aegypti (LIRAa). O número é o dobro do Alto do Mandu (5,5) localidade com maior infestação no Recife. Quem mora no Monte se vira como pode para se proteger das doenças transmitidas pelo inseto. “O negócio aqui está sério. Uma vez na semana tiro todos de casa e aplico inseticida. Também cuido para evitar focos”, contou Cláudia da Silva, 34.

Fonte: Folha de Pernambuco

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