No Dia Mundial de Luta Contra a Aids, estudos alertam para cuidados com aplicativos de encontros

A cada seis horas, uma pessoa se infecta com o HIV em Pernambuco, segundo dados da Secretaria Estadual de Saúde. A introdução da tecnologia como intermédio da paquera mudou as formas de conquista e tem sido apontada como facilitadoras de novos casos. A instantaneidade provocada pelos aplicativos de “pegação” traz consigo a vulnerabilidade ao HIV e acende hoje – Dia Mundial de Luta Contra a Aids – o alerta de especialistas para a necessidade de incorporar essa nova demanda nas ações de prevenção.

De 1983 a 2016, Pernambuco registrou 24 mil casos de Aids (quando o paciente já desenvolve os sintomas da doença), sendo 15 mil em homens e oito mil em mulheres. Entre 2014 e 2016, foram 3,1 mil registros. A maior parte dos casos de Aids e HIV têm atingido pessoas de 20 e 39 anos. De 2014 a este ano, os registros de Aids nessa faixa etária entre os homens representam 86% do total. Entre mulheres, o percentual é de 87%.

Segundo o boletim epidemiológico de 2016, do Ministério da Saúde, a maior concentração de Aids no Brasil está nos indivíduos entre 25 e 39 anos. O documento destaca, entretanto, que de 2006 a 2015 a taxa de infecção entre pessoas do sexo masculino de 15 a 19 anos mais que triplicou, e entre os de 20 a 24 anos dobrou. “São pessoas que não viram a ‘cara’ da Aids, em função do avanço nas formas de medicação”, explica a enfermeira da ONG Gestos, Roberta Correia. Ela diz que todo mês recebe jovens com diagnóstico recente.

Dentre os motivos está o uso de aplicativos de “pegação”. O impacto nos índices de infecção por HIV, sobretudo em homens jovens homossexuais, em países como China, Japão e Filipinas, já foi alvo de relatório do Unicef. Essa realidade, em Pernambuco, foi apontada na pesquisa de mestrado Representações Sociais sobre HIV/Aids de jovens homossexuais masculinos: implicações nas práticas de prevenção, realizada na UFPE. “Se o jovem está vulnerável psicologicamente, os aplicativos podem ser um espaço para encontrar pessoas passando pelo mesmo momento e sentir prazer”, afirma a enfermeira responsável pelo estudo, Natália de Freitas.

A percepção é semelhante para o sociólogo e militante do Coletivo Rua, Wellthon Leal, 27. Usuário dos aplicativos, ele explica que é comum, entre parceiros com menos de 25 anos, dispensar o preservativo. “Se não peço, não mencionam”, afirma. Para Wellthon, as novas dinâmicas de relacionamento facilitam viver a sexualidade, mas não garantem cuidados. Ele tem um amigo que foi infectado após encontro através de app.

O empresário Ricardo (nome fictício), 23, foi vítima. “Saí com um homem que julguei não ter HIV pelo físico. Ele pediu para fazer sexo sem camisinha e aceitei. Logo depois, descobri a infecção. Como foi cedo, estou em tratamento”, disse ele, que hoje em dia não usa mais os apps. O diretor de arte Kelvyn Defoe, 27, usa dois aplicativos há três anos. Já se encontrou com 50 parceiros e tem métodos de prevenção. “Além de conferir se o perfil deixa explícita a soropositividade, uso camisinha.”

O objeto da pesquisa da UFPE foram jovens homossexuais masculinos, mas o risco também existe para os outros usuários. Entre mulheres brasileiras, em 2015, 96% dos casos de infecção foram por exposição heterossexual. Wellthon acha que os métodos tradicionais de educação sexual não chegam a esses novos “canais”. “Realizamos um projeto, o Viver Melhor Sabendo Jovem, no qual discutimos o assunto. A ideia é criar perfis nessas redes para dialogar sobre, por exemplo, o uso da camisinha”, acrescentou. A iniciativa será posta em prática em breve. Hoje, o grupo lança quatro vídeos no Youtube com dicas e orientações sobre educação sexual.

Fonte: Diario de Pernambuco

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