“Minha vida agora é aqui”, diz a aposentada Ângela Queiroz, 74 anos, apontando para a cadeira de balanço na varanda de sua casa, em uma viela no Sancho, Zona Oeste do Recife. Por orientação médica, ela passa maior parte do dia sentada, pois não pode fazer esforço, sob pena de ter um infarto. Com artérias do coração obstruídas, ela precisa urgentemente de cirurgia. Há dois meses está numa fila que conta com 400 pessoas em todo Estado e teima em não andar.
São portadores de doenças cardiovasculares e que deveriam ser atendidos pelo serviço de cirurgias mantido pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no Real Hospital Português (RHP), em Paissandu, área central do Recife. Desde o início do ano, com repasses cada vez mais escassos, as cirurgias cardiovasculares – eram cerca de 1,3 mil por ano nos tempos de bonança – foram reduzida em 35%. O resultado é previsível: aumento na fila de espera e mortes de pacientes em estado grave.
A situação levou os 20 cirurgiões cardiovasculares que cuidam do serviço no RHP a redigir, há uma semana, carta aberta à população, expondo a precariedade do serviço e as consequências nas vidas dos doentes. Com a redução das operações, veio o desmonte de parte da estrutura e a demissão de alguns profissionais. No documento, os médicos dão dimensão do problema. “Como cardiopatas, muitos terão sua doença agravada ou morrerão aguardando pela cirurgia”, diz o texto.
“Continuamos a operar uma quantidade mínima, mesmo sem receber, em respeito às vidas dos pacientes. Mas a estrutura está precária”, explica o cardiologista Fábio Granja, um dos que assinam o manifesto. “Estamos chegando ao ponto de termos que escolher entre os casos mais graves.”
O serviço funcionava também em Petrolina e atendia à população do Sertão. Por volta de 2014, não havia fila, quem chegava era operado. Mas, com a crise, que se agravou em 2015, terminou fechando e os pacientes precisam ir para a capital.
Os médicos alegam ter procurado o governo do Estado para discutir a situação, mas não houve sinal positivo para restabelecer o fluxo de operações. “Partimos, há cerca de dois meses, para o Ministério Público, em busca de uma solução.”
O presidente do Sindicato dos Médicos de Pernambuco (Simepe), Tadeu Calheiros, diz que o Estado tem que ser responsabilizado pelo atraso. “Trata-se do reflexo do subfinanciamento da saúde pública. Sabe-se que o período é de crise, mas essa é uma situação grave.” Por meio da assessoria do Ministério Público de Pernambuco (MPPE), a promotora Helena Capela informou que já oficiou o governo do Estado sobre o caso e aguarda resposta.
Fonte: Jornal do Commercio



