O ‘Fenômeno Petrolina’, em captação de órgãos

Milhares de brasileiros morrem anualmente nas listas de espera para transplante por falta de doadores, enquanto milhares de órgãos de pessoas com morte cerebral deixam de ser aproveitados, ora porque as centrais de transplantes não têm a competência necessária para viabilizar esses doadores em potencial, ora porque as famílias negam a doação.

As nações paradigmáticas nesse assunto são a Espanha e a Croácia, onde até 40 doadores de múltiplos órgãos por milhão de habitantes são viabilizados anualmente, o que torna mínimos o tempo de espera e, consequentemente, a mortalidade em lista naqueles países. No Brasil, a média de captação é de 11 por milhão de habitantes/ano, variando de 22, no estado de Santa Catarina, a zero, no nosso vizinho Alagoas, onde, por sinal, residem algumas centenas de transplantados de fígado pela nossa equipe, aqui em Recife.

Pernambuco assumiu uma posição de relativo destaque no cenário nacional, alcançando 15,4 por milhão de habitantes/ano, por conta, em grande parte, da boa e nova notícia, chamada “fenômeno Petrolina”. Com efeito, a Organização de Procura de Órgãos (OPO) daquela cidade, uma espécie de braço avançado da Central de Transplantes de Órgãos de Pernambuco, vem dando uma lição de competência para o restante do Brasil.

Mercê da abnegação dos colegas médicos e enfermeiras daquela OPO, que primam pela iniciativa e pelo espírito de superação, bem como dos números alarmantes de acidentes de moto seguidos de morte cerebral naquela região, órgãos de boa qualidade têm sido disponibilizados semanalmente para as equipes transplantadoras do Recife e de outros centros brasileiros. Para tornar possível o transplante, com logística muitas vezes complexa, no meio da noite, aviões da FAB são algumas vezes usados no transporte das equipes, graças a um recente decreto do governo federal.

Assim, durante o ano de 2015, Petrolina efetivou nada menos que 43 doações de múltiplos órgãos. Se considerarmos a população da cidade e da região sobre a qual aquela OPO tem abrangência (inferior a um milhão de habitantes), a conclusão é de que o seu desempenho no ano passado esteve bem acima da média nacional e, pasmem, foi superior à internacional. E continua crescendo, pois no primeiro semestre deste ano, 26 captações múltiplas já foram concretizadas.

Nos congressos nacionais, onde essa problemática vem sendo amplamente discutida, temos enfatizado o papel da medicina de ponta, especialmente dos transplantes, como elemento capaz de alavancar a qualidade da medicina e das demais ciências da saúde que se pratica na região, mesmo na atenção primária. Nesse contexto, o estado de Alagoas está ficando para trás, enquanto, no outro extremo, a cidade de Petrolina destaca-se e consolida-se como polo médico altamente promissor.

Fonte: Diario de Pernambuco

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