Após 30 anos da primeira epidemia de dengue no Recife, a cidade passa a ser um dos 14 centros brasileiros que começam a realizar os testes em humanos de fase 3 da primeira vacina brasileira contra a doença, desenvolvida pelo Instituto Butantan, em São Paulo. No Estado, o estudo será coordenado pelo Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães, unidade da Fiocruz Pernambuco que, no campo das arboviroses, ganha destaque pela trajetória científica que tem percorrido desde 2002. Naquele ano, o Estado passou por uma epidemia explosiva da doença, com a entrada do sorotipo 3 da dengue, responsável pela notificação de 116 mil casos.
“Nossa experiência prévia possibilitou contatos com Butantan, que reconheceu a importância de fazer o trabalho conosco. No nosso Departamento de Virologia e Terapia Experimental (Lavite), há seis profissionais, entre pesquisadores e técnicos, envolvidos exclusivamente com esta fase de testes da vacina”, informa o diretor da Fiocruz Pernambuco, Sinval Pinto Brandão Filho.
Ontem, durante o lançamento do início dos testes clínicos na Fiocruz Pernambuco, três funcionários da instituição apresentaram-se como voluntários para essa fase da pesquisa. Receberam a vacina (aplicada em dose única, protegendo contra os quatro tipos do vírus da dengue) e serão, como os demais participantes do estudo, acompanhados por cinco anos. A meta é que, no Estado, cerca de 1,2 mil pessoas sejam contatadas para os testes. Elas serão selecionadas no bairro do Engenho do Meio, Zona Oeste do Recife, pelos pesquisadores.
“Nós temos muita expectativa de que no Recife, devido à alta exposição (aos vírus da dengue), que o número de voluntários seja bastante elevado e que, dessa maneira, o Aggeu consiga recrutar rapidamente as pessoas”, ressalta o diretor do Instituto Butantan, Jorge Kalil, que acompanhou o início dos testes, na capital pernambucana, ao lado dos governadores Geraldo Alckmin (São Paulo) e Paulo Câmara (Pernambuco). “Esperamos uma proteção de 80% a 90% para os quatro sorotipos. Acreditamos que, se conseguirmos efetivamente vacinar um número razoável de pessoas, seja possível, em abril ou maio, sabermos se a imunização funciona ou não. Pode ser que, no próximo verão, a gente já tenha a vacina. Se conseguirmos fabricá-la em 2017, vamos começar a distribuir no fim do ano pela rede pública”, completa Kalil.
O diretor do Butantan esclarece que não é preciso esperar concluir os cinco anos de acompanhamento dos voluntários, após a aplicação do imunizante, para começar a disponibilizar o produto. Segundo Kalil, esse tempo de avaliação é necessário para se conhecer a memória imunológica da vacina da dengue – ou seja, analisar por quanto tempo o imunizante oferece proteção. “Só assim vamos saber se será preciso revacinar, daqui a uns anos, ou não.” O imunizante do Butantan, desenvolvido em parceria com o Instituto Nacional de Saúde (NIH, na sigla em inglês), é produzido com vírus vivos, mas geneticamente atenuados – ou seja, enfraquecidos, sem potencial para provocar a doença. A fábrica da vacina no Instituto Butantan, em São Paulo, será inaugurada em dezembro deste ano, segundo informou Geraldo Alckmin, durante o evento de lançamento dos novos testes do imunizante na Fiocruz Pernambuco.
Para Paulo Câmara, a vacina é necessária para prevenção da infecção pelo vírus que, há três décadas, é responsável por complicações e óbitos no Brasil, em todas as faixas etárias. “É um passo importante. Mas nós temos que fazer o nosso dever de casa, cuidando principalmente para não ter água parada e trabalhar para não deixar que focos do mosquito aconteçam no quintal das casas e nos locais de trabalho”, destacou Paulo.
Fonte: Jornal do Commercio



