Só o plano não dá conta

O lançamento de um Plano Estadual de Enfrentamento das Doenças Transmitidas pelo Aedes aegypti tem duas avaliações possíveis que devem ser destacadas: primeiro, deixa ver que a administração pública não está inerte e é capaz de sobrepor uma questão vital para a população às picuinhas políticas em que continua mergulhado o País. Num segundo momento esse Plano escancara o lado da irresponsabilidade coletiva. Se em alguns casos é possível transferir ao governo a responsabilidade pela falta da coleta de lixo aqui ou ali, neste caso, a responsabilidade é sobretudo das pessoas que produzem os detritos, possibilitam a proliferação de viveiros e convivem com o mosquito causador das epidemias que desde 1987 vêm traumatizando muitos pernambucanos.

Está dito no Plano lançado pelo governo que a principal arma do Estado ainda é o combate ao mosquito e para isso vão ser distribuídas 60 mil capas para vedação de recipientes no armazenamento de água. Essa não pode ser vista como uma atividade típica da administração pública. Sua obrigação é distribuir a água tratada, mas cuidar do armazenamento privado é atribuição das pessoas, exercício da cidadania pelo cuidado que se deve ter com a saúde pessoal, da família e coletiva. Na falta desse cuidado, a administração gasta dinheiro do contribuinte além do que já dispõe para o serviço de pulverização que no novo plano vai ser levado a 33 cidades com maior incidência da doença. E, mais uma vez, é preciso advertir que a epidemia não surge do nada, ela tem uma causa que está na porta das casas, nos quintais, nos espaços onde deveria haver a atenção de quem dele dispõe.

Cabe acentuar o lema desta campanha, proclamado informalmente pelo secretário de Saúde do Estado, Iran Costa: “Só vamos conseguir diminuir os casos se diminuirmos a proliferação do mosquito”. Se reduzirmos esse propósito a uma política de governo estaremos perante uma fatalidade recorrente, pois governo nenhum é capaz de fazer valer – sequer como política de Estado – o controle de arboviroses sem a participação da comunidade, o envolvimento coletivo para conter um mal transmitido por insetos e de que resulta o que está aí posto com epidemias de dengue, zika vírus, febre chicungunha. Se não basta estar chamando atenção para o alto custo social e econômico que essas doenças têm produzido, deve-se rogar para todos os protagonistas desta tragédia empregarem o melhor possível de suas funções – o chefe de família, a dona de casa, o professor, a professora, o sindicato dos trabalhadores, o dirigente de empresa – para que o plano voltado para a luta em 2017 em Pernambuco não seja apenas mais uma manifestação de boa vontade, que não é suficiente para impedir a proliferação do agente causador, o mosquito transmissor.

Fonte: Jornal do Commercio

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