Zika: vacina pode chegar “tarde demais”, alerta OMS

No último dia de reunião de um comitê de emergência para o zika na Suíça, a Organização Mundial da Saúde alertou que a vacina contra o vírus pode chegar “tarde demais” para ter impacto no surto atual na América Latina. A diretora geral adjunta da OMS, Marie-Paule Kieny, afirmou que o desenvolvimento ainda é “precoce” e que as opções em estágio mais avançado vão demorar “vários meses”.

A previsão mais otimista é a de um laboratório norte-americano, que anunciou, em fevereiro, ter obtido resultados exitosos em experimentos com camundongos. A intenção é de que, até o fim do ano, testes sejam feitos em macacos e em humanos. Em todo o mundo, 18 instituições estão focadas na elaboração de uma vacina.

A OMS salientou a preocupação com o rápido avanço da doença. As projeções indicam que quatro milhões de pessoas devem adoecer, este ano, por causa do vírus. Kieny declarou ainda que a vacina é um “imperativo”, especialmente para mulheres grávidas e para mulheres em idade fértil, em razão dos casos de microcefalia em bebês, que tiveram aumento no Brasil a partir do segundo semestre de 2015.”

No mês passado, o Ministério da Saúde firmou parceria com a Universidade do Texas para o desenvolvimento de uma vacina. “Talvez dentro de três anos é que tenhamos uma vacina. Três anos, sendo otimista”, disse o diretor do Instituto Butantan, Jorge Kalil.

O infectologista e professor de Saúde Pública da Universidade Federal do Maranhão, Carlos Frias, aponta que, mesmo diante da aflição da espera pela vacina numa situação de emergência mundial, esse mecanismo é o método mais eficaz, mesmo que, com o passar dos anos, boa parte da população já tenha atingido imunidade por ter sido infectada.

“Deve demorar dois, três anos, mas é o meio mais efetivo. É o caminho que se tem e deve ser a prioridade dos esforços”, opina. “Com a soma de todas as outras metodologias (combate ao mosquito, por exemplo), não digo que a guerra esteja perdida, mas está havendo dificuldade de controle, de obter êxito. Então, a vacina é o caminho”, acrescentou o especialista.

DIAGNÓSTICOS – Na reunião na Suíça, que juntou especialistas e representantes dos países afetados, os cientistas também definiram como preocupações prioritárias o desenvolvimento de testes de diagnóstico e a criação de instrumentos de controle que permitam reduzir a população de vetores. Sobre a produção de vacinas e remédios, a diretora geral adjunta da OMS fez uma ressalva: “O zika leva a uma infecção moderada e quase inofensiva na maioria dos pacientes”, disse, explicando que, por isso, a produção de insumos para tratar a infecção “é menos prioritária nesta fase”. “A necessidade maior é o desenvolvimento de instrumentos de diagnóstico e prevenção para preencher a lacuna na investigação e proteger grávidas e bebês”, finalizou.

Controle do mosquito ineficaz

A OMS também classificou métodos usados para combater o Aedes aegypti como ainda ineficazes, exemplificando o uso de inseticidas, que não teve tanto êxito no combate à dengue, o que também deve ocorrer com o zika. “O Aedes aegypti é a barata dos mosquiitos”, disse Marie-Paule Kieny, sobre a dificuldade de controle do vetor.

A saída considerada é investir em técnicas inovadoras, como a liberação de mosquitos incapazes de fecundar fêmeas. No Brasil, já há experiências semelhantes, como o uso de energia nuclear para esterilizar insetos machos em Fernando de Noronha. A OMS, entretanto, destacou a necessidade de controle sobre tais iniciativas.

Especialistas defendem que, embora aparentemente “desgastadas”, as estratégias já postas em ação são o caminho mais rápido para controlar o vetor. “Os inseticidas e larvicidas precisam ser trocados porque os mosquitos adquirem resistência. Então, quando se fala de menor efetividade dessas ações, é preciso pensar nisso”, diz a pesquisadora do Laboratório de Mosquitos Geneticamente Modificados da USP, Helena Araújo.

A professora da área de gestão ambiental da UFRPE, Soraya El-Deir, lembra que, assim como a muriçoca em décadas passadas, o Aedes tem adquirido novos hábitos ao longo dos anos, um desafio a mais para o controle das arboviroses.

Fonte: Folha de Pernambuco

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