Os padrões alimentares dos mosquitos brasileiros começaram a mudar om a chegada dos portugueses em 500. O sangue novo trouxe grande excitação às sanguessugas aéreas, essencialmente por seu gosto estranho, e início não identificado, com excesso de sal, mas totalmente diferente o gosto forte de mandioca das vítimas de muitos séculos, os que foram chamados de índios porque Cabral achou que tinha chegado à Terra de era Cruz, nas Índias. Lamentavelmente, os estoques de bacalhau e de vinho logo acabaram, os portugueses caíram na mandioca, todos os sangues voltaram ao mesmo gosto e os mosquitos se sentiam comendo ração. putz! Com a chegada da família real, a mosquitada foi ao delírio. Afinal, além do cardápio farto garantido por população de origens e tipos sanguíneos variados como índios, escravos, portugueses e muitos estrangeiros, além dos nascidos nas terras do Brasil, mulatos, cafuzos, caboclos e mamelucos, nossos mosquitos passaram a beber o sangue azul dos reis e das rainhas, dos príncipes e das princesas, da nobreza com suas perucas, sedas e brocados, gente de pele branquinha, gordinha, que delícia! Os mosquitos viviam o paraíso das muitas cidades brasileiras com esgoto correndo a céu aberto, ruas imundas perfumadas pela urina dos nobres senhores, pântanos e alagadiços por toda parte reproduzindo a cada dia legiões de novos mosquitos com sede absurda se incorporando ao banquete. Em 1903, ganhamos a guerra contra os mosquitos no Rio, uma das cidades mais sujas do mundo à época, com gestão competente, séria e ousada de Osvaldo Cruz, que chegou a ser considerado inimigo do povo nos jornais e parlamentos, superando a revolta das vacinas. Mas 516 anos após a chegada de Cabral, os mosquitos se sofisticaram, baixaram a produção de febre amarela e de malária e sua obra-prima, o Aedes aegypti, passou a nos dominar com seu alto nível de profissionalização impondo-nos a vergonha e as tragédias da dengue, da chikungunya e da microcefalia. Piada infeliz, querem acabar com os mosquitos por decreto, por apelos nas mídias, mas verdade é que se estamos sendo derrotados por mosquitos, estamos preparados para ganhar qual guerra? Estamos perdendo todas as guerras, perdidos entre a corrupção e a recessão, entre a inflação e o desemprego, mas nossos mosquitos são muito famosos, inclusive objeto de discursos de presidentes de países de primeiro mundo e de conferências da ONU que recomendam: não viajem para o Brasil! Ok, não viajarei para o Brasil, mas sou brasileiro e vivo no Brasil: o que faço para proteger minha família e a sociedade? Não sou criador de mosquitos, procuro e combato possíveis águas de parto e uso repelentes e raquetes eletrocutadoras que estalam frequentemente ao garantir mais um mosquito brasileiro privado de picar e de beber nosso sangue e de nos transmitir doenças, além de ameaçar o mundo. Você, o que faz? Cria mosquitos? Continuaremos o País derrotado por Nossa Excelência, o Aedes? O comediante de saudosa memória diria: Fala sério! Panta rei.
Fonte: Folha de Pernambuco



