A microcefalia relacionada ao zika tem, na maioria das vezes, acometido famílias carentes. Um levantamento identificou que em mais da metade dos casos notificados no Estado os bebês são filhos de mães inscritas no CAD Único, porta de entrada para os programas assistenciais do Governo Federal. São 636 mulheres nessa condição. Entre elas, 77% (490) estão na linha de extrema pobreza – renda per capita familiar (por pessoa) de até R$ 77. Na época da pesquisa, o Estado tinha 1,2 mil bebês notificados como microcéfalos. Hoje são mais de 1,5 mil.
Desempregada, Gabriela Azevedo, 20 anos, é uma das mães que se veem diante de momentos de angústia por conta da falta de recursos. A vida financeira da família virou de cabeça para baixo. Ela foi demitida ainda grávida. O marido teve o mesmo destino há quatro meses, pouco depois do nascimento da filha do casal, Ana Sophia. Eles têm sobrevivido com a ajuda de parentes. “No Carnaval, até água fui vender para ver se ganhava algum dinheiro. Está sendo muito difícil. Se não fosse minha avó e minha sogra, que estão contribuindo, não sei o que seria de nós”, relatou Gabriela.
Desde que Ana Sophia nasceu os gastos com fraldas, remédios e viagens para consultas e tratamentos só se multiplicam. “Foram R$ 800 de uma vez só. Indo todo dia para um hospital, às vezes, até mais de um, todos distantes, o que sobra?”, questiona a moradora de Peixinhos, em Olinda, que tenta obter o Benefício de Prestação Continuada (BPC) junto ao INSS desde novembro. Por meio do mecanismo, os responsáveis por bebês com microcefalia têm direito a um salário mínimo. “Dei entrada. Até agora, nada. Minha perícia está marcada para 29 de abril. É tempo demais”, lamenta.
A investigação sobre o perfil social das famílias onde nasceram os bebês microcéfalos foi feita pela Coordenação de Vigilância Socioassistencial da Secretaria de Desenvolvimento Social, Criança e Juventude (SDSCJ) do Estado. O secretário da pasta, Isaltino Nascimento, destacou que no encontro será discutido um plano para oferecer assistência aos familiares de bebês microcéfalos. “Foi uma surpresa nos deparar com esses dados da pesquisa. Isso mostra que é preciso haver um olhar maior com o cuidado das pessoas. Até agora as ações foram basicamente em relação à saúde. Precisamos também apoiar essas mães e bebês financeiramente”, disse.
O secretário adiantou que está buscando alternativas assistenciais junto ao INSS. Ontem, ele esteve reunido com gestor regional do Instituto para discutir sobre a possibilidade de criação de um benefício financeiro, além do BCP. “Esse benefício só vai atender famílias com renda per capita de R$ 220 reais. Só que nem todas as famílias estão enquadradas nesse critério. Cerca de 22% das famílias têm filhos com microcefalia. São vulneráveis, mas ficam de fora desse benefício. Precisamos discutir sobre isso com a Previdência”. O panorama da pesquisa que revelou o perfil econômico das mães de bebês microcéfalos será apresentado nesta quinta-feira durante o seminário l “Microcefalia e os Cuidados Socioassistenciais”, no auditório da Fafire, das 9h às 17h.
Fonte: Folha de Pernambuco



